Pílulas de Humanidades

Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

Angela Davis é uma filósofa afroamericana que foi presa por 16 meses na década de 1970, após ser acusada falsamente de um crime que não cometeu. Ela não tem dúvidas de que sua libertação se deveu a um movimento internacional organizado para que ela fosse libertada. Se não fosse por este movimento, ela seria mais uma pessoa negra presa injustamente nos Estados Unidos. Tal experiência foi determinante para sua reflexão filosófica e acadêmica, e, há mais de 30 anos, ela luta pela abolição da prisão. Seu argumento não é ingênuo. Abolição, neste caso, não significa eliminação das prisões, mas diminuição significativa de uma instituição que surge, nos EUA, como forma de manter os corpos negros sob controle após a abolição da escravidão, e, nos dias atuais, é reflexo das desigualdades que permeiam as vidas de pessoas negras e brancas nos EUA. Acesso à educação pública de qualidade, a empregos e moradias dignos, evitaria que muitas pessoas negras entrassem no sistema carcerário. Leiam Angela Davis (Estarão as prisões obsoletas?, Difel, 2019; A democracia da abolição, Difel, 2020)! Assistam Angela Davis (Libertem Ângela Davis, 2014, documentário disponível no Netflix.)!

Ana Carolina da Costa e Fonseca, professora de Filosofia da UFCSPA

Você sabia que não há um feminismo, mas sim feminismoS, que se distinguem pelo lugar e época do seu nascimento (as chamadas ondas), pelas mulheres que os representam (de brancas ou pretas, se da elite ou trabalhadoras) e por aquilo que defendem? E que feminismo NÃO é o oposto de machismo, ainda que se oponha a ele? Em Feminismo para os 99%: um manifesto (Boitempo, 2019), de Cinza Arruza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser, você não vai encontrar a história dos feminismos, mas vai se deparar com um manifesto poderoso em defesa de um feminismo para todas e todos (ou quase), um feminismo antirracista, contra toda e qualquer forma de violência e opressão, defensor dos direitos de todas as pessoas, de todas as minorias, da paz, da democracia e da ecologia (afinal, como podemos viver bem e em paz com nossa Mãe Terra sendo tão agredida?). Te convido a fazer parte e a tomar parte deste movimento em favor de toda a humanidade.

Ana Boff de Godoy é professora do DEH e defensora dos direitos humanos.

Ninguém fez tanto pela popularização e modernização da milonga como Bebeto Alves. Natural de Uruguaiana, o cantautor fronteirizo iniciou sua carreira em Porto Alegre nos anos 70, com o Grupo Utopia, em parceria com Nico Nicolaiewski e outras figuras da cena local. Participou do antológico disco “Paralelo 30”, coletânea que é considerada um marco da música popular urbana de sotaque gaúcho. Em carreira solo, lançou diversos discos em que mistura milonga com uma variedade de ritmos, principalmente rock. Nesta quarentena, Bebeto nos brindou com duas joias: o que ele promete ser seu último disco, Oh Black Blagual pela última vez, e seu primeiro disco solo – até então inédito – Salvo (1979). Nesses lançamentos, podemos ver o início e o fim da expressão de um grande compositor e interprete na linguagem que o acompanhou e a sua geração – a do disco. Bebeto diz que seguirá fazendo música, mas não discos. “Oh Black Bagual” revela um cantautor maduro, versátil e competente, que lavra a inovação com os bois da tradição, misturando a linguagem universal da milonga – já notaram que o tema Hava Naguila é, no fundo, una milonguita? — com ritmos como o rock, o pop, o xote e a música amazônica, com letras que são um mosaico de imagens – da pampa gaúcha ao norte do brasil e daí para além – do longo caminho percorrido pelo compositor. Ambos lançamentos estão à disposição em todas as plataformas digitais.

William Kirsch é professor de língua inglesa do DEH.

Vocês já ouviram falar de "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley. Ou ainda de "1984" (e o seu Big Brother) e da "Revolução dos Bichos", de George Orwell. Uma inspiração desses romances clássicos distópicos encontra-se em Nós (1924), do russo Eugênio Zamiátin. A vida de Zamiátin é acidentada. Ele participou como bolchevique das revoluções de 1905 e de 1917. Com a consolidação da ditadura e da censura pelo Partido Comunista, Zamiátin se torna um crítico do sistema. É perseguido. Nós é censurado. Pudera: trata-se de uma uma ficção científica satírica inspirada no autoritarismo soviético. O mundo é governado por um Estado Único, liderado pelo Benfeitor. As pessoas são números. Vivem em prédios de vidro transparentes. Um famoso e conformista cientista, D-503, vê sua vida mudar ao se envolver com uma rebelde. O visual futurista da edição da Aleph é um presente para os olhos. Traz ainda uma resenha do romance assinada por George Orwell e a carta que Zamiátin enviaria nos anos 30 a Stalin, implorando permissão para deixar a União Soviética. O Benfeitor dará sua autorização, e Zamiátin morrerá exilado em Paris.

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa na UFCSPA.

Da Ilha do Marajó, no Pará, Adamor Lobato Ribeiro, também conhecido mundialmente na Amazônia como Adamor do Bandolim, é o expoente maior daquilo que se convencionou chamar de Choro Amazônico. Compositor de espantosa versatilidade e verdadeiro virtuose no instrumento que lhe dá o sobrenome de guerra, começou a tocar aos 10 anos de idade, no início dos anos 50, tentando imitar os choros do violonista Garoto num bandolim feito de sucata por seu tio. Seu Choro Amazônico tem um incrível sotaque de ritmos locais – o Lundu, o Xote, a Lambada e o Carimbó –, que soa ao mesmo tempo familiar e estranho aos ouvidos treinados pelo Choro carioca. Prestes a completar 77 anos de idade, Adamor nos brinda com um discasso: Vertentes! Lançado durante esta quarentena, o álbum de oito temas autorais é luxo só e está à disposição em formato digital no Spotify.

William Kirsch é professor de língua inglesa do DEH.