Ninguém fez tanto pela popularização e modernização da milonga como Bebeto Alves. Natural de Uruguaiana, o cantautor fronteirizo iniciou sua carreira em Porto Alegre nos anos 70, com o Grupo Utopia, em parceria com Nico Nicolaiewski e outras figuras da cena local. Participou do antológico disco “Paralelo 30”, coletânea que é considerada um marco da música popular urbana de sotaque gaúcho. Em carreira solo, lançou diversos discos em que mistura milonga com uma variedade de ritmos, principalmente rock. Nesta quarentena, Bebeto nos brindou com duas joias: o que ele promete ser seu último disco, Oh Black Blagual pela última vez, e seu primeiro disco solo – até então inédito – Salvo (1979). Nesses lançamentos, podemos ver o início e o fim da expressão de um grande compositor e interprete na linguagem que o acompanhou e a sua geração – a do disco. Bebeto diz que seguirá fazendo música, mas não discos. “Oh Black Bagual” revela um cantautor maduro, versátil e competente, que lavra a inovação com os bois da tradição, misturando a linguagem universal da milonga – já notaram que o tema Hava Naguila é, no fundo, una milonguita? — com ritmos como o rock, o pop, o xote e a música amazônica, com letras que são um mosaico de imagens – da pampa gaúcha ao norte do brasil e daí para além – do longo caminho percorrido pelo compositor. Ambos lançamentos estão à disposição em todas as plataformas digitais.

William Kirsch é professor de língua inglesa do DEH.