Pílulas de Humanidades
Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

O último livro publicado por Rosa Montero é a Pílula de Humanidade de hoje. Este livro da jornalista e escritora espanhola é geralmente descrito como uma reflexão sobre o luto, porém pode ser também visto como uma forma de compreender a vida que se pode levar: aquela que construímos, a que nos obrigamos a viver, a que vivemos pelos outros e a que nos permitimos viver. Ao ler o diário que Marie Curie escreveu após a morte de seu marido, Rosa Montero traça um paralelo a vida enlutada da física ganhadora por duas vezes do Prêmio Nobel e a sua própria trajetória da perda do companheiro de muitos anos, Pablo. A ridícula ideia de nunca mais te ver (2019, Todavia, tradução de Mariana Sanchez) não é, apenas, um livro de reflexões sobre a morte, mas sobre os processos de construção da memória e sobre as possibilidades que a vida oferece.
Aline Aver Vanin é professora e linguista interdisciplinar de olho a vida.

Nesta pílula de humanidades, eu não gostaria de comentar uma obra em especial, mas sim alguns periódicos que leio com regularidade e que me parecem algumas das coisas mais interessantes que temos ao nosso dispor na imprensa. Sim, são revistas e jornais que costumo ler, não estou falando de periódicos acadêmicos. A minha primeira dica é a Revista Quatro Cinco Um, que tem este nome em homenagem ao célebre romance distópico de Ray Bradbury. A 451 é uma revista mensal sobre livros. Fala de lançamentos de todas as áreas, traz resenhas, entrevistas e artigos de opinião de alto nível sobre o mundo dos livros. Na mesma linha da 451, há um belo jornal, chamado Suplemento Pernambuco. Ótimas resenhas e matérias, mais voltadas para o mundo da literatura de ficção. Por fim, gostaria de destacar outra revista que sempre leio, a Piauí. É uma publicação mensal que trata de política, cultura, comportamento e outros temas. Tem como principal característica ser uma revista que traz longas reportagens, com apuração detalhada em cada uma delas. Atualmente, estas publicações podem ser lidas online, compradas em algumas livrarias online ou por assinatura.
Éder Silveira, Historiador e professor do DEH.

Estamos em isolamento social. A regra do ninguém entra, ninguém sai, deve ser aplicada em cada casa. Mas como explicar às nossas crianças que elas não podem sair de casa, mesmo que não tenha aula, mesmo que o dia esteja lindo, devido a um vírus tão pequeno que não se vê. E sem assustá-las? Haja criatividade para propor, diariamente, novas atividades para fazer com os anjinhos da casa... Artes são sempre a melhor opção. Vamos pular a parte dos artistas sendo chamados de vagabundos há alguns meses, não? A pílula de hoje é sobre um desenho animado, Valente (2012), que conta a história de uma menina que não queria casar e, apesar de ser uma princesa, não sonhava com um príncipe. O desejo desta princesa é revolucionário. Quando pensamos em princesas, pensamos no príncipe, no cavalo branco, no casamento, no castelo. Ou não? Ou não mais? Há 70 anos, as mulheres poderiam decidir não casar? Mérida é a princesa escocesa, exímia arqueira, que não deseja um casamento arranjado e, quando a recusa parece inevitável, vence seus adversários com a arma que escolheu para poder casar consigo mesma. Que tal curtir uma animação e uma conversa com seus pimpolhos sobre casamento, amor, habilidades, liberdade? Vivam as artes! Vivam os artistas! E fique em casa!
Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA, e seu pimpolho bem pimpolho está feliz por ter a mãe em casa com ele o dia inteiro, e ainda não quer conversas sérias sobre nada.

Esta é uma pílula necessária. Ailton Krenak, transitando entre os povos brancos e originários, entre nossa cultura forjada e a natural, propõe um papo reto sobre o que estamos fazendo, como humanidade, com a vida de nossa Mãe-Terra e, consequentemente, com as nossas próprias vidas. Livro atualíssimo, O amanhã não está à venda (Companhia das Letras, 2020 – eBook gratuito pela Amazon) aborda a pandemia de Covid-19 como oportunidade de silenciarmos nossas mentes e percebermos nosso entorno de maneira mais verdadeiramente humana. Que caminho iremos escolher seguir a partir daqui? Retornar a uma suposta normalidade “e seguir nos devorando, provando que a humanidade é uma mentira”, ou honrar os milhares de mortos no mundo inteiro, o conhecimento científico produzido até aqui, o trabalho árduo de tantas pessoas que entregam suas próprias vidas para proteger a outras? Se você está aqui, na UFCSPA, é porque, de alguma forma, já tem a resposta. Então, não esqueça que estamos juntes e que, como diz Krenak: “Para combater esse vírus, temos que ter primeiro cuidado e depois coragem”.
Ana Boff de Godoy é professora de coisas humanas e acredita que podemos ser melhores.

O clima de pandemia pode ser triste, e, às vezes, tudo o que se quer é esquecer um pouco as notícias com um livro que nada tenha a ver com temas lúgubres. Se é assim, por que A peste, romance lançado pelo escritor francês Albert Camus em 1947, voltou a ser best-seller na Europa e nos EUA e esteve entre os mais vendidos da Amazon desde o começo da pandemia de COVID-19? Talvez porque a arte e a literatura não servem apenas a nos distrair das nossas tristezas e das nossas dificuldades quotidianas, mas também a representá-las, significá-las e nos ajudar a vivê-las... É certamente isso que tantos leitores têm buscado nesse clássico da literatura dita existencialista sobre a luta do dedicado médico Bernard Rieux contra um surto de peste bubônica que se espalha na cidade argelina de Oran. Rieux tem de debelar resistências mil: o negacionismo das autoridades, as resistências da população, a perda de amigos e de pacientes para a doença. Ao contrário do que se poderia esperar de uma narrativa com esse tema, a mensagem de Camus nada tem de derrotista: frente à morte e à doença, frente também à dificuldade dos homens de encarar o real, há lugar para a coragem e para a esperança, mesmo num mundo sem Deus. Na situação difícil em que estamos, podemos descobrir motivos para seguirmos fortes com a visão humanista de Camus.
Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa na UFCSPA.





