Pílulas de Humanidades

Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

A leitura de O sol é para todos (2006, José Olympio, tradução de Beatriz Horta), de Harper Lee, poderia transformar o título deste romance em uma pergunta: se há, ainda, tantas diferenças por causa da cor da pele, seria possível dizer que as oportunidades são iguais para todas e todos? Este livro, ganhador do prêmio Pulitzer, é narrado a partir do ponto de vista da menina Scout, filha de um advogado que defende um homem negro que é acusado de estuprar uma mulher branca. A história se passa nos Estados Unidos dos anos 1930, época de segregação racial, uma mancha na história americana. A autora se baseia nas próprias memórias para escrever um texto emblemático sobre racismo e injustiça social. Apesar de ter sido escrito há tanto tempo, os eventos desta história podem ser imaginados nos dias atuais, e isso nos revela o longo caminho que ainda precisamos percorrer em direção a uma sociedade verdadeiramente igualitária - utopia?

Aline Aver Vanin é professora e linguista interdisciplinar de olho a vida.

Você já pensou na sua velhice? Legalmente, a velhice começa aos 60 anos. Com quantos anos você acha que se sentirá velho? E seus pais, são velhos? E seus avós? Quantos anos eles têm? Como se sentem? Quem divide suas vidas com eles? Quem cuida deles? Usualmente, pensamos que as doenças que chegam com o envelhecimento são o maior dos problemas da velhice. João Nery, que morreu com 68 anos, dois dias depois de terminar o livro Velhice transviada (Editora Objetiva, 2019), lançado postumamente, nos ensina que a solidão é o maior dos males da velhice. E a solidão de travestis e transexuais velhos é ainda mais dura. Poucas são as pessoas trans que chegam à velhice, logo, muitos dos amigos trans dos idosos trans, morreram há muito tempo. A família, em geral, rejeitou as pessoas trans há décadas. A aceitação para a volta do convívio na velhice, seguidamente, é condicionada ao retorno à condição original, ou seja, que deixem de se apresentar ao mundo como trans que são. João conversa com alguns trans idosos, nem todos com mais de 60 anos, pois a hormonização cobra cedo uma conta alta dos transexuais e travestis. Ter mais de 50 anos é ser velho para um transexual ou travesti. E João quis ouvi-los para conhecer um pouco de seu passado e compreender as dores do presente. Chorei lendo muitas das histórias! Estejam preparados para um livro lindo e emocionante!

Ana Carolina da Costa e Fonseca, professora de Filosofia da UFCSPA

Cada estação evoca uma atmosfera, uma cor, um sentimento próprio… Foi essa a intuição que o diretor francês Éric Rohmer seguiu para fazer, nos anos 90, o ciclo de filmes Contos das Quatro Estações. Como o título do ciclo já indica, cada um dos filmes se passa em uma estação, em uma região da França e evoca um personagem às voltas com sua situação sentimental e com alguma dúvida: no Conto de Primavera (1990), uma menina tenta juntar uma amiga com seu pai; no Conto de Inverno (1992), uma cabeleireira parisiense espera por um amante que ela perdeu de vista, enquanto hesita entre dois outros homens; no Conto de Verão (1996), um jovem matemático, em férias na praia, não sabe se decidir entre três meninas que ele namora ao mesmo tempo; finalmente, no Conto de Outono (1998), uma mulher tenta arranjar um marido para a amiga reclusa no campo usando seu nome em anúncios de jornais… Situações quotidianas, diálogos ágeis e deslumbrantes paisagens francesas fazem a alegria desses filmes aparentemente leves, mas cheios de sutilezas que se revelam a cada vez que os revemos. Pode-se começar por qualquer um dos filmes do ciclo, mas meu preferido é o Conto de Verão. E estão todos disponíveis em streaming gratuito no site Petra Belas Artes!

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa na UFCSPA e grande apreciador de cinema, literatura e artes em geral.

Recém saído do forno pela Companhia das Letras (com tradução de Odorico Leal e disponível gratuitamente em ebook pela Amazon), o último livro do historiador israelense Yuval Noah Harari, autor dos conhecidíssimos Sapiens: Uma breve história da humanidade e de Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã, é um breve e necessário ensaio. Defensor da informação científica confiável e da solidariedade global como única proteção real contra essa e futuras pandemias, o autor sustenta a cooperação internacional e a compreensão humana ampla sobre a natureza das epidemias como pilares para manutenção de nossa existência, afinal, “a propagação das epidemias em qualquer país põe em risco toda a espécie humana”. Este é o princípio humano básico que todo líder merecedor deste nome deve seguir e o único capaz de garantir nossa sobrevivência e, talvez, a tão desejada prosperidade. Você já pensou sobre o que significa uma humanidade verdadeiramente próspera?!

Ana Boff de Godoy é professora de coisas humanas e acredita que podemos ser melhores.

Junto com países como os Estados Unidos, a Alemanha, a França e o Japão, o cinema que vem da Rússia é um dos mais importantes cinemas do mundo. Uma boa porta de entrada para conhecer mais da língua, da cultura e da história russas são seus grandes diretores, dos vanguardistas durante a Revolução comunista (Dziga Vertov, Sergei Eisenstein) até os ultra-premiados contemporâneos, como Alexander Sokurov (A Arca Russa) ou o jovem Kantemir Balagov (Uma mulher alta, indicado ao Oscar do ano passado). De todos esses grandes nomes do cinema russo, talvez aquele que tenha alcançado uma reputação mais sólida de cult seja Andrei Tarkovski. Ele fez filmes durante o período comunista e logo despontou como um dos mais modernos e ousados criadores russos. Morreu jovem, ainda nos anos 80, mas deixou filmes que definem a identidade nacional russa no país e no exterior. Seus filmes, desafiadores, situam-se em vários gêneros, da ficção científica ao filme de época. No streaming do site Petra Belas Artes, tu encontras Solaris (1972) e Stalker (1980), dois filmes futuristas belíssimos e estranhos, além de Andrei Rublev (1966), épico impressionante sobre um pintor de ícones na Idade Média. São maneiras maravilhosas de descobrir as belezas do cinema, da literatura e da cultura russos.

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa na UFCSPA e grande apreciador de cinema, literatura e artes em geral.