Pílulas de Humanidades

Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

Imagine viver em um mundo de violência física e psicológica, em que você não tem direito de expressar suas ideias, outras pessoas decidem o seu destino e você se encontra à margem de todas as histórias por causa de seu gênero e da cor da sua pele? Esse é o resumo da vida de Celie, personagem principal de A cor púrpura (1982), que ainda criança é abusada sexualmente pelo pai, engravida duas vezes e é dada em casamento a um vizinho bem mais velho, que a maltrata. A narrativa se desenvolve por meio das cartas que Celie escreve a Nettie, sua irmã que vai embora de casa muito jovem, fugida dos maus tratos, e a Deus. Embora o romance escrito por Alice Walker (primeira mulher negra a ganhar o Pulitzer por ficção!) esteja ambientado nos Estados Unidos da primeira metade do século XX, encontra ecos ainda hoje por nos fazer pensar sobre as relações sociais estabelecidas a partir das desigualdades de gênero, raça e classe. Esse é, talvez, um dos mais importantes romances da história da literatura contemporânea.

Aline Aver Vanin é linguista e professora do DEH/UCSPA.

Você já pensou em assistir os maiores pensadores do país no conforto de sua casa e sem gastar nem um tostão? Pois é... desde 2003 isso é possível, ainda que haja muita gente que prefira assistir in loco. O Café Filosófico é uma iniciativa do Instituto CPFL e, em parceria com a TV Cultura, transmite periodicamente esses encontros, disponibilizando-os também no seu canal do Youtube: Café Filosófico CPFL. As palestras são maravilhosas, com uma pegada informal, sem aquele ranço acadêmico que às vezes nos faz dormir. O público interage fazendo intervenções e perguntas e os temas são bem variados, ainda que sempre ligados ao pensar! Atualmente há 935 vídeos disponíveis, sendo o último deles uma aula indispensável do popular historiador e professor da Unicamp, Leandro Karnal, sobre As epidemias e seus impactos na história da humanidade. Que tal maratonar por aqui?!

Ana Boff de Godoy é professora do DEH/UFCSPA.

Há filmes que eu revejo com frequência e que parecem inesgotáveis. São obras que me marcaram profundamente, que me fazem pensar ou, simplesmente, trazem boas recordações. Edifício Master (2002), de Eduardo Coutinho, é um deles. Em seus doze andares, vinte e três apartamentos por andar e cerca de 600 moradores, o Master é um caleidoscópio de experiências, capturadas com enorme sensibilidade pelo documentarista Eduardo Coutinho. São narrativas sobre sonhos, alegrias, decepções e solidão que constroem este incrível painel sobre a vida em uma grande cidade brasileira, narradas por pessoas simples, como você e eu. O documentário está disponível no YouTube.

Éder Silveira é historiador e professor do DEH/UFCSPA.

Quem gostou de Chernobyl deve saber que a série se inspirou no livro Vozes de Chernobyl, da escritora bielorussa Svetlana Alexeievitch, ganhadora do Nobel de 2015. Svetlana compõe seus livros como um mosaico de relatos de testemunhas dos grandes momentos da história russa. Uma de suas obras-primas é O Fim do Homem Soviético (2016), em que compila centenas de depoimentos de pessoas comuns que viram suas vidas mudarem absolutamente com a desintegração da União Soviética e a conversão rápida ao capitalismo. Há a família que cai nas mãos da máfia, a jovem profissional independente que faz fortuna no novo sistema, os velhos comunistas que de um dia para o outro veem suas crenças se dissiparem como nuvens... Svetlana Alexeievitch é uma das grandes figuras do nosso tempo pela sua capacidade de ouvir e de dar voz às mil vozes de um povo.

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

O nome de João Bosco tem andado na boca do povo. Tanto pelo recente falecimento, por COVID-19, de seu grande parceiro, o poeta, letrista, cronista e ex-médico, Aldir Blanc, como pelo nada surpreendente revival da canção-emblema do regresso dos expatriados da Ditadura Militar que controlou o país por quase trinta anos: “O Bêbado e o Equilibrista”, brilhantemente interpretada por Elis Regina. Tão celebrado compositor e intérprete volta à carga com aquele que este que vos fala reputa ser um dos melhores, se não o melhor, disco de sua carreira, o Abricó-de-Macaco. Em um disco de quatorze músicas, podemos reconhecer o violão virtuoso e versátil de João, já consagrado em todos seus trabalhos anteriores, numa mescla de ritmos – samba tradicionalíssimo, samba do recôncavo, blues, um forró de pegada eletrônica – e sotaques de tirar o fôlego. Relê clássicos que ninguém imaginava que pudessem ser refeitos – “Água de Beber” – e faz versões de arrepiar até a medula de canções desconhecidas e sem-graçola – como “Profissionalismo é isso aí”, transformando-as em clássicos imediatos. Será que é um réquiem para seu parceiro, Aldir? O Abricó-de-Macaco foi lançado no fim de maio e está à disposição no Spotify e em outras plataformas eletrônicas.

William Kirsch é professor de língua inglesa do DEH/UFCSPA.