Pílulas de Humanidades
Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

A invasão europeia em territórios africanos a partir do século XV marcou com brutalidade o longo processo de colonização sofrido pelos habitantes desse continente. A violência produzida pela escravidão e a perpetuação de uma história única sobre o que é ser africano reverberam até hoje. Em O mundo se despedaça (1958), o escritor nigeriano Chinua Achebe se dedica a mostrar outro ponto de vista quando dá protagonismo a Okonkwo, um guerreiro igbo reconhecido em nove aldeias de Umuófia. Ao longo da história, que se passa na Nigéria pré-colonial (fim do séc. XIX), lemos a voz interior de Okonkwo, e entramos de cabeça na cultura igbo, na sua relação com a terra, na adoração a seus deuses, suas festas tradicionais, seus modos de pensar a vida e a guerra (muito diferentes do modo de pensar ocidental). Porém, com a chegada brutal de missionários europeus, a cultura e a religião igbo sofrem rupturas drásticas. Um romance sobre como a história da África precisa ser narrada a partir da perspectiva das pessoas desse continente, e não do colonizador, que cria estereótipos, julgamentos e narrativas embasadas na história que se diz "universal".
Aline Vanin é linguista in(ter)disciplinar e professora no DEH.

Extraordinárias: mulheres que revolucionaram o Brasil, de Duda Porto de Souza e Aryane Cararo (Seguinte, 2018), é mais um livro escrito para o público infanto-juvenil e que conta histórias de brasileiras que deveriam ser conhecidas por muita gente, mas ainda não são. Eu já recomendei alguns durante a pandemia. Quantos livros ainda precisarão ser escritos para que percebamos o quanto houve de apagamento das histórias de mulheres? Um apagamento feito de modo intencional para confirmar uma tese falsa: a tese de que mulheres não seriam capazes de atuar na esfera pública. Percebe-se, cada vez mais nos últimos anos, o quanto as vozes de mulheres do passado são ouvidas no presente; vozes que formam um coro potente que conta às jovens o que não nos contavam no passado, que o lugar da mulher é onde ela quiser. Leiam sobre mulheres! Leiam textos escritos por mulheres! E tornem-se o que vocês desejam ser!
Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.

Assisti a esse filme por engano, pois estava sem óculos e achei que fosse com Tom Hanks... Mas a fotografia e a cena inicial de Dan Stulbach (sósia do Tom Hanks aos olhos de quem está ficando velho), interpretando o psicólogo Júlio César na iminência de cometer suicídio, capturaram minha atenção. É bem verdade que o filme é cheio de clichês e que não dá pra levar a sério a sua história (tão inverossímil quanto um livro de autoajuda), mas pra quem está aberto a receber O vendedor de sonhos (2016) menos com a razão e mais com os sentidos, o filme, dirigido por Jayme Monjardim é uma boa pedida. César Troncoso no papel de um homem muito misterioso está sensacional, e nos faz rir, sentir e pensar. Esse filme, que aquece o coração e nos enche de esperança, está disponível no Netflix e no Youtube.
Ana Boff de Godoy é professora do DEH/UFCSPA e ainda não se conformou com o fato de ter de usar óculos.

Por que calar nossos amores? Poesia homoerótica latina (Editora Autêntica, 2017) é uma coletânea de poemas homoeróticos que fazem parte do legado literário da antiga civilização romana. Para além da grandeza guerreira dos épicos e da dramaticidade solene das tragédias, os grandes escritores latinos, como os poetas Catulo, Horácio ou Tibulo, sabiam usar de tons que variavam entre o discreto e o explícito, o elegante e o jocoso, para evocar e/ou celebrar o amor e o sexo entre moças e rapazes, habituais na sociedade romana durante longos períodos da República e do Império. Esses poemas nos permitem vislumbrar um mundo muito distante do nosso, ao mesmo tempo em que descobrimos sentimentos que nos são familiares. São também uma porta de entrada para o estudo da língua e da cultura latinas, que estão na base da nossa própria civilização. A coletânea foi organizada e traduzida pelos professores Raimundo Carvalho, Guilherme Gontijo Flores, Márcio Meirelles Gouvêa Júnior, João Angelo Oliva Neto.
Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

#MeToo é um movimento que toma força em 2017 e coloca em evidência os muitos homens assediadores e as muitas mulheres assediadas. De modo nunca antes visto, as mulheres passam a ser ouvidas quando fazem relatos de assédio. Finalmente, os outros passam a acreditar nos relatos das mulheres, e, com isso, mais mulheres tomam coragem e denunciam, o que dá ainda mais força aos primeiros relatos. Jeffrey Epstein: filthy rich é uma série documental lançada em 27 de maio de 2020 pela Netflix, que conta a história de um bilionário pedófilo que estabeleceu uma pirâmide (sexual) para ter acesso a adolescentes a quem ele pagava tanto para ter relações sexuais, quanto para que levassem até ele outras adolescentes. Por 200 dólares, as jovens eram contratadas para fazer massagens, que, invariavelmente, terminavam em abuso sexual. Pela pouca idade das vítimas, entende-se que elas não tinham condições de consentir. Ainda assim, e, apesar de pagar, muitas das relações sexuais foram explicitamente sem consentimento, ou seja, estupros. Os quatro episódios contam histórias pesadas e mostram a conivência de agentes do Estado que atuaram para proteger um homem violento. Passaram-se mais de 20 anos, desde a primeira denúncia, para que as vítimas fossem de fato ouvidas e, finalmente, um predador sexual voraz fosse preso. Devo avisar, que o bandido morre no final. A série é pesada, mas dá voz a muitas mulheres que sofreram em silêncio por décadas.
Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.





