Pílulas de Humanidades

Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

Igiaba Scego é uma das jovens escritoras negras que deve ser lida por ser excelente escritora e por ser negra. Ler autoras negras incentiva que elas vislumbrem a possibilidade de viverem do seu fazer literário e incentiva que mais autoras negras sejam publicadas, porque as editoras publicam principalmente o que é vendido. Ler mulheres e, em especial, mulheres negras é, pois, uma escolha política. Caminhando contra o vento (Editora N´s/Buzz Editora, 2018) conta de uma maneira leve e rápida a vida do músico e poeta Caetano Veloso e de que modo conhecer o trabalho do músico influenciou a italiana descendente de somalis em momentos difíceis da sua vida. A ênfase está no trabalho do artista e não em fatos pessoais. Mas, para artistas intensos como Caetano, não há como falar de letras de músicas sem falar do que aconteceu com ele.

Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia UFCSPA e já ouviu muito Caetano Veloso enquanto dirige seu carro.

Há uma nova geração de escritoras negras que, dados os novos ventos, refletem sobre suas existências, escrevem, são publicadas e lidas. Jarid Arraes é uma quase balzaquiana que escreve cordéis, poesia e, no ano passado, publicou seu primeiro livro de contos, Redemoinho em dia quente (Alfaguara, 2019). Ela escreve com leveza sobre temas pesados: as várias facetas da loucura permeada pela pobreza, o ser sem rumo de quem não sabe que pode haver um rumo. Uma jovem mulher que escreve com a intensidade de quem conhece o sofrimento e sabe narrá-lo com suavidade, sem maltratar demais o leitor.

Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.

Uma das especialidades do cinema italiano são as comédias dramáticas! Sim! Aquelas comédias inteligentes, que nos tocam profundamente o coração, que nos fazem pensar e, de quebra, nos deixam mais leves e com disposição para enfrentar qualquer desafio. Loucas de alegria (La pazza gioia, no original), filme de 2016 do diretor Paolo Virzì, é um dos meus filmes preferidos deste gênero. Ambientado nos arreadores de Pistoia, conta as peripécias de Beatrice e Donatella, duas mulheres fantásticas, mas que fogem dos padrões da normalidade e, por isso, vivem em uma comunidade terapêutica em Villa Biondi. Entre aventuras e desventuras, entre histórias reais e imaginárias, muito podemos rir e aprender com estas incríveis personagens e com este premiadíssimo filme, disponível em streamings e no Youtube.

Ana Boff de Godoy é professora de humanidades da UFCSPA.

O chamado "Fofão" era um personagem clássico e anônimo de São Paulo. Vagava nas imediações da Rua Augusta com o rosto desfigurado por aplicações excessivas de silicone. Em 2017, o jornalista Chico Felitti se interessou pelo personagem, que provocava medo e sarcasmo em parte da população. E descobriu que o Fofão da Augusta era na realidade Ricardo, um antigo cabeleireiro das estrelas e figura da noite paulistana. Por uma mistura de esquizofrenia, exclusão social e desastre financeiro, Ricardo viu-se na situação de pedir dinheiro na rua. Felitti também descobriu o amor da vida de Ricardo: Vagner, outro personagem da noite nos anos 80, que abandonou Ricardo para realizar o sonho de viver em Paris. Tornou-se Vânia, profissional do sexo conhecida na capital francesa, apesar das deformações também deixadas no seu rosto pelo silicone industrial. É difícil não se emocionar com o livro-reportagem Ricardo e Vânia (Todavia, 2019), que é um exercício baudelairiano nos nossos tempos: o de ver os invisíveis da metrópole, de dar-lhes um nome, uma vida e uma história, para além do rosto desgarrado e amedrontador que encontramos nas ruas.

Éder Silveira é historiador e professor do DEH/UFCSPA.

David Lynch é um dos cineastas mais singulares em atividade. Conseguiu algo difícil, que é se equilibrar entre o registro mais popular (a série Twin Peaks foi lançada na televisão aberta nos EUA, no começo dos anos 1990, com enorme sucesso) e filmes altamente herméticos, aclamados pela crítica. Uma experiência interessante é acompanhar seu canal no YouTube, David Lynch Theater. O livro Espaço para sonhar (Best Seller, 2019) é, a um só tempo, uma biografia de Lynch, escrita por Kristine McKenna e uma autobiografia do cineasta. Os dois se alternam no texto; para cada capítulo biográfico de McKeena há um capítulo de Lynch comentando a história de sua vida. Bonito, inusitado e muitas vezes com um sentido difícil de apreender. Como a vida.

Éder Silveira é historiador e professor do DEH/UFCSPA.