Pílulas de Humanidades
Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

Fala-se muito hoje de "defesa da família", de "novos modelos de família", de "família tradicional"... Vamos entender de onde toda essa conversa veio? A Origem da Família, da Propriedade e do Estado, de Friedrich Engels, é um livro central para se informar sobre esse debate. Claro que a antropologia, a história e a etnologia mudaram muito desde 1884, quando o companheiro de Marx baseou-se nos conhecimentos da época nessa área para descrever como a família monogâmica se tornou regra nas sociedades industrializadas. Ainda assim, Engels fala ao leitor moderno ao mostrar como os laços sociais e afetivos supostamente mais espontâneos têm uma história e são criados nas relações de dominação entre os homens. A partir da ciência do século XIX, traz um ponto de vista importante para quem se interessa pela origem e pelo significado de noções como a poligamia, a poliandria, a monogamia, o casamento grupal, o incesto, o adultério, as relações livres, o divórcio, a adoção e a subjugação feminina.
Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

O exercício da empatia tem-se tornado cada vez mais necessário em tempos em que as muitas possibilidades de se viver geram sofrimento a quem ousa contrariar aquilo que é considerado a norma. Disclosure (2020), filme de Sam Fender e Amy Scholder, discute como a representação de pessoas trans na mídia mainstream contribui para moldar a maneira como percebemos quem rompe a oposição binária marcada sobre o corpo. O filme constrói uma narrativa a partir do olhar autoral de mulheres e homens trans sobre séries e filmes majoritariamente no contexto norte-americano. Cada depoimento é uma reflexão sobre a importância da representatividade trans no cinema e na TV para além de estereótipos, para oferecer a quem não se reconhece nas pessoas ao seu redor o entendimento de que não se está sozinha(o) no mundo. Revelar-se é um processo: numa época em que o conservadorismo avança de maneira assustadora e violenta, é necessário coragem para erguer a voz, e também para saber ouvir. O filme se soma a outras iniciativas de visibilidade às narrativas trans: recentemente a transativista Bruna G. Benevides reuniu registros de pessoas trans no cinema brasileiro (“11 filmes sobre ativistas trans que você precisa conhecer”). Numa linha de tempo, Bruna nos mostra como semelhanças e diferenças nas transgeneridades vividas por travestis e mulheres transexuais preservam a memória do movimento LGBTQIA+ para além de um dia ou um mês marcado pelo orgulho de ser quem se é.
Alexandre do N. Almeida é professor do Departamento de Educação e Humanidades e gosta de aprender um pouco mais sobre as infinitas possibilidades de existência.

Foi a partir de uma postagem em um blog, intitulada Por que eu não falo mais com pessoas brancas sobre raça (Letramento, 2019), que o livro homônimo da jornalista britânica Reni Eddo-Lodge começou a ser gestado. Na obra, a autora aprofunda o seu manifesto que nos faz pensar sobre as violências que a população negra sofre por causa das estruturas racistas enraizadas profundamente no inconsciente coletivo. Ela disserta sobre temas urgentes, como o mito da democracia racial, que faz crer que a raça não é um fator determinante para os espaços que as pessoas negras ocupam, sobre privilégio branco, sobre como o sistema beneficia sobremaneira a branquitude. Também é didática ao explicitar o porquê de políticas inclusivas serem ainda necessárias para, de certa forma, reparar os danos sofridos em séculos de opressão (no Brasil, foram 338 anos de escravização!). Sobretudo, chama a atenção a violência e o poder que emergem pela linguagem nas referências às vidas negras. Apesar de pensar a sociedade britânica, o livro deve ser lido a partir da ótica de um país como o Brasil, que ainda carrega as marcas da escravização de milhares de vidas.
Aline Vanin é linguista e professora do DEH/UFCSPA.

Primorosa a direção de João Jardim, bem como a direção de arte de Tiago Marques Teixeira e, ainda, a atuação de Tony Ramos no papel de Getúlio Vargas, controversa figura histórica do nosso país. Getúlio (2014) conta a história dos últimos dezoito dias de vida do estadista – nascido em São Borja e formado na UFRGS – menos do ponto de vista político e mais sob aspectos humanos daquele que dirigiu o país de forma ditatorial de 1934 a 1945 e, depois, eleito pelo voto popular, de 1951 a 24 de agosto de 1954, quando se suicidou. Ironia da vida, exatos onze anos antes morria Getulinho, um de seus cinco filhos. Alzira (Drica Moraes), a filha e fiel-escudeira do pai, ganha no filme o destaque merecido que a história não lhe deu. O filme respira entre balas de revólver – do atentado na rua Tonelero (a Carlos Lacerda) até o último suspiro de Getúlio – e nos leva a reviver os ares daquela época e daquelas tramas que, afinal, seguem se repetindo por linhas tortas na nossa história. Disponível no Netflix e no Youtube.
Ana Boff de Godoy é professora do DEH/UFCSPA.

Hoje mulheres votam e são votadas no Brasil e em quase todos os países do mundo. Há cem anos, no entanto, o número de países onde mulheres podiam votar não enchia os dedos das mãos. A história do voto, no Brasil e em outros lugares do mundo, é contada de modo simples e aprofundado (não, não são adjetivos conflitantes) num livro escrito por Teresa Cristina de Novaes Marques: O voto feminino no Brasil (2018), publicado pela Câmera dos Deputados e disponibilizado para download gratuito na Biblioteca Digital da Câmara e na Amazon. Conhecer o passado é fundamental para compreender o presente. Você lembra das pessoas em quem votou nas últimas eleições? Você lembra quando ocorreram as últimas eleições? E para quais cargos? E seu voto foi dado para pessoas que, de fato, lhe representam? Que podem falar em seu nome? Que defendem ideias com as quais você concorda? Conheça a história do direito ao voto das mulheres e valorize, cada vez mais e a cada novo pleito, o seu voto.
Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia da UFCSPA.





