Pílulas de Humanidades
Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

Toni Morrison (1931-2019) foi a primeira mulher negra a receber um Prêmio Nobel de literatura, você sabia? Ela se formou em Letras e foi professora de humanidades, como eu. A origem dos outros: seis ensaios sobre racismo e literatura (2017) é uma coletânea de algumas de suas últimas palestras proferidas em Harvard (2016). Partindo de obras literárias, Morrison discorre “sobre a maldição (o veneno) daquilo que é se tornar estrangeiro”, ou seja, do sentimento de não-pertencimento, de “não se sentir em casa no próprio país, de estar exilado no lugar ao qual deveria pertencer”, algo que a autora nomeia como “outremização” e que eu singelamente sintetizo aqui como o processo psicológico que exercemos sobre o outro para nos distinguirmos dele a fim de nos sentirmos superiores (o que, paradoxalmente, prova o quanto somos frágeis). O nome é difícil, mas é uma forma bastante pertinente de explicar o racismo e todas as outras formas de exclusão. É sempre bom ler e aprender (com) Toni Morrison.
Ana Boff de Godoy é professora de humanidades da UFCSPA.

Há histórias tão absurdas que não parecem reais. Quando pensamos na caça às bruxas empreendida na Idade Média parece uma coisa tão absurda e, portanto, apenas possível por que... bem... é a Idade Média, né? Não! E isso é surpreendente! No presente, cada vez mais mulheres são brutalmente assassinadas acusadas de bruxaria. E o Estado, que deveria defender a vida de todos os seres humanos, se omite no caso de muitas mulheres. Silvia Federici em Mulheres e caça às bruxas (Boitempo, 2019) analisa de que modo o movimento de caça às bruxas da Idade Média tinha motivação fundamentalmente econômica e contribuiu para o estabelecimento do capitalismo na Europa. Em seguida, ela volta seu olhar especialmente para a África para discutir de que modo a nova caçada às mulheres sob a acusação de bruxaria tem, igualmente, motivações econômicas. Eis um livro inquietante, por nos mostrar como a realidade pode ser absurda.
Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA

Maudie: sua vida e sua arte (2016), de Aisling Walsh, cinebiografia que retrata a vida de uma mulher forte e sensível, que sofre de artrite reumatoide e é negligenciada pela família, motivo que a leva e buscar sua independência pelo trabalho, apesar das limitações físicas decorrentes da doença e do preconceito sofrido pelo fato de ser mulher e, ainda, coxa. Maudie é uma pintora amadora que encontra na arte o porto seguro para superar o machismo e o preconceito do próprio marido, bem como da sociedade da época, que a considerava incapaz seja para o cuidado de si, seja para o cuidado de outrem. A pintura transforma sua vida, seu casamento e a torna uma artista de sucesso. O filme é um convite para um mergulho no universo do sensível, do improvável e de questionamentos sobre a vida: É possível ensinar a ver o mundo com olhos de artista? É possível transformar desafios e limitações físicas a partir de um propósito de vida simples, mas feliz? É possível, a partir de diferenças, encontros e rupturas físicas e emocionais, se reconstruir como ser humano? Um ser humano mais leve, mais flexível e mais sensível para olhar para o mundo sem necessariamente enquadrar-se em uma moldura? Disponível no Netflix.
Cleidilene Ramos Magalhães é Pedagoga. Sua atuação no DEH/UFCSPA dialoga com o ensinar e o ensinar a ensinar na área da saúde.

Os nazistas avançam sobre a Áustria em 1938. A Europa assiste à anexação, sem mover uma palha: nada nos acontecerá, Hitler vai parar, os nazistas ladram mas não mordem… Éric Vuillard conta esse desastre histórico em A Ordem do Dia, narrativa polêmica que recebeu o Prêmio Goncourt em 2017 (maior prêmio literário da França). Muitos foram cúmplices de Hitler: a burguesia alemã o financiou; a Inglaterra calou; a França virou o rosto; a Áustria se submeteu com alegria. Empresas alemãs e estrangeiras até hoje atuantes se beneficiaram do trabalho barato nos campos de concentração (Bayer, BMW, Shell, Volkswagen, Krupp, Siemens, Ford, IBM). Éric Vuillard constrói as emoções e os pensamentos dos personagens principais dessa história de covardia e de mesquinhez, com o olhar implacável da História que apura as responsabilidades e aponta cúmplices. Afinal, quando a besta do fascismo mostra a cauda, nada fazer é ser também culpado.
Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

Ricardo Darín é um daqueles atores que nos leva a ver um filme pela sua simples presença nele. No caso de Darín, não só pela certeza de uma ótima atuação, mas também porque escolhe seus filmes a dedo. A odisseia dos tontos (La odiseia de los giles, 2019), seu mais recente filme, não deixa por menos: conta a história de um grupo de vizinhos de um pequeno povoado que tenta superar a crise argentina de 2001 montando uma cooperativa. No entanto, o governo de Fernando De la Rúa surpreendeu a todos com o que ficou conhecido como “corralito” (confisco das poupanças e contas correntes), fazendo com que os desiludidos amigos traçassem uma improvável revanche. A direção de Sebastián Borensztein sobre o livro de Eduardo Sacheri (La noche de la Usina, 2016) dá a medida exata entre engajamento político, crítica social e humor. E a atuação de Darín, perfeita como sempre, ganha um toque especial neste filme, pois ele atua pela primeira vez em companhia de seu filho, Chino Darín – que interpreta o seu próprio filho!
Ana Boff de Godoy é professora de humanidades da UFCSPA.





