Pílulas de Humanidades

Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

A velhice é o tabu dos nossos tempos, e o sexo na velhice mais ainda… É por isso que ficamos com um sorriso amarelo a cada página do Diário de um velho louco (1962), este genial romance cômico do gigante da literatura japonesa Junichiro Tanizaki. O respeitável Sr.Tokusuke Utsugi fica velho, triste e doente, e também fica tarado. E relata em seu diário sua atração pela própria nora, a ex-dançarina Satsuko. Ela se aproveita do masoquismo do sogro (que adora umas pancadas!) e de seu fetiche por pés femininos para sugar o dinheiro da família e para acobertar o caso que ela própria mantém com o jovem sobrinho do patriarca. Este não é um livro para reprimidos, mas para quem deseja se deliciar com o amoralismo do humor japonês e refletir sobre a nossa necessidade de buscar prazer mesmo nas condições mais improváveis.

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

Há livros que são transformadores. Há livros que são interessantes. Coisa de menina? (Papirus 7 Mares, 2019) de Maria Homem e Contardo Calligaris é um livro interessante. Os dois psicanalistas estabelecem “uma conversa sobre gênero, maternidade e feminismo”, como o subtítulo do livro anuncia. E na conversa deles percebemos que mesmo pessoas muito inteligentes tampouco compreendem tudo. Gostei o suficiente do livro para recomendá-lo. Ao mesmo tempo, em relação a vários aspectos, pensei: uhm... vocês ainda não entenderam isso. Se vale a leitura? Sim! E a crítica também!

Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA e está ficando ainda mais resmungona depois de tantos meses de isolamento social.

Feito em casa (Home made) é uma série ítalo-chilena apresentada pela Netflix. Mas é uma série bem diferente! A “primeira temporada” é, na verdade, um primeiro volume de dezessete curtas feitos em casa durante a pandemia de Covid-19. Ou seja, agora mesmo! Alguns são engraçadíssimos, outros nos fazem chorar; alguns são enigmáticos, outros diretos como uma bomba... Mas em todos a gente se reconhece, ainda que feitos por mãos tão diferentes e distantes das nossas, pois há diretores e diretoras de várias nacionalidades. Aliás, talvez essa seja mesmo uma das grandes lições da pandemia, pois estamos todos conectados (seja pelo vírus ou pela internet), nada parece ser mais tão distante e descobrimos que não somos tão diferentes assim... Os curtas de que mais gostei foram Voyage Au Bout De La Nuit, do Paolo Sorrentino, e Penelope, da Maggie Gyllenhaal. E você?!

Ana Boff de Godoy é professora de humanidades da UFCSPA.



Um nazista culto e homossexual, que odeia a mãe e vive uma paixão incestuosa pela própria irmã gêmea... Não bastasse, ele viaja pelo Reich como oficial da SS, testemunhando e organizando assassinatos em massa de judeus, ciganos, deficientes, "associais", comunistas e outros indesejáveis. Essa flor de pessoa é Max Aue, o protagonista de As Benevolentes (Companhia das Letras, 2007), do franco-americano Jonathan Littell. Nesse romance-choque lançado na França em 2006 e ultrapremiado desde então, acompanhamos em terríveis e eletrizantes milhares de páginas as memórias de Max Aue, de Auschwitz a Stalingrado, das boates gay em Paris aos campos de extermínio na Polônia. Na sua tranquila velhice como um pacato burguês, Max Aue lembra e escreve - mas sabe, como o Orestes na tragédia de Ésquilo, que existem as Benevolentes, aquelas divindades da mitologia grega que punem a consciência do culpado, lembrando-o a toda hora seu crime.

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

Será coisa de louco fazer uma nota de lançamento de um álbum com exatos 25 anos de sua gravação? Não se esse álbum for o Coisa de Louco II, da Graforréia Xilarmônica (já faz tanto tempo que o acento no primeiro nome até caiu!). O clássico primeiro álbum da já clássica banda de rock gaúcho (a despeito do nome conter o “II” em romano) foi lançado em 1995 pelo selo Banguela Records. Após muitas tretas, o disco foi recentemente relançado nas plataformas digitais, fazendo sua estreia (já sem o acento de Graforréia) para as novas gerações. Nesse disco estão diversos clássicos do rock gaúcho, num som rockabilly com influências de Jovem Guarda, de coisas mais experimentais, e também da sonoridade da música popular gaúcha. A capa mostra que nada é mais moderno do que aquilo que é antigo à beça: os membros da banda parecem hipsters frequentadores do Bloco da Laje ou da Void e estão cercados por discos de vinil. Claro, 1995 era o ano em que a Loira do Tchan rebolava em cima de uma garrafa na televisão enquanto a família brasileira comia um bife na mesa de domingo; por isso, algumas das canções podem ser impróprias para menores e caretas. 

William Kirsch é professor de língua inglesa do DEH.