Pílulas de Humanidades

Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

Em A terceira vida de Grange Copeland (1970), Alice Walker narra o cotidiano de uma família negra do sul dos Estados Unidos por três gerações: a de Grange Copeland, um trabalhador rural oprimido pela sua condição de raça (e, consequentemente para aquela época, de classe); a de seu filho, o violento e infeliz Brownfield, que maltrata sua mulher, Mem; e a de sua neta, Ruth, a única que tem acesso à educação, mesmo que a muito custo. A obra trata das novas formas de escravidão sofrida pela população negra que, mesmo liberta, fica à mercê de "parcerias rurais" com proprietários de terras, do trauma do racismo cotidiano, da opressão sofrida pelas mulheres negras e pobres numa sociedade que as invisibiliza. Ao longo da narrativa, pipocam temas políticos como a luta pelos direitos civis, explicitando posicionamentos nos quais a própria autora se engajou ao longo da vida.

Aline Vanin é linguista in(ter)disciplinar e professora no DEH.

Quando vemos pessoas fazendo sucesso na televisão, parece que a vida delas é só alegria (e que só nós é que sofremos). Barbara Gancia é uma jornalista sensacional, muito inteligente, culta, engraçada; ouvi-la é a certeza de dar muitas risadas e, ainda, aprender algo. Mas a alegria aparente esconde muito sofrimento. Em sua autobiografia, A saideira (Planeta, 2018), Barbara Gancia nos conta sobre os altos e baixos da sua vida - baixos, que foram bem baixos. Com inteligência e cultura, ela fala também das dificuldades, e o alcoolismo foi a maior delas. Sóbria há mais de uma década e muito sincera ao avaliar sua vida, oferece uma leitura leve e pesada, que nos faz rir e pensar, inclusive sobre a enorme diferença que há entre o que as pessoas mostram ser e o que de fato são. Se você não está muito bem agora, talvez seja melhor esperar um pouco para ler, ou então, comece a ler o livro ciente de que nem tudo são flores...

Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.

Hitler amava Paris. E, se a capital da Europa não fosse dele, não seria de mais ninguém. É 1944, e os Aliados avançam sobre Paris ocupada pelos nazistas. As ordens de Hitler são claras: terra arrasada - a cidade inteira deve ser dinamitada (monumentos, palácios, praças, milhões de habitantes). Raoul Nordling, diplomata sueco, tem algumas horas para convencer o General von Choltitz a descumprir as ordens loucas do Führer. Baseado em uma peça e em relatos históricos, o filme Diplomacia (2014, França/Alemanha, direção de Volker Schlöndorff) nos mostra o quanto a civilização é ameaçada pelo impulso destruidor da guerra e do autoritarismo, mas também que há forças na beleza e na cultura para resistir à loucura dos homens. Se nos chocamos com o recente incêndio na catedral de Notre Dame, como imaginar um mundo em que ela, a Torre Eiffel, o Louvre e o Arco do Triunfo teriam voado pelos ares junto com essa cidade mítica? O filme está em streaming no site Petra Belas Artes.

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

Olhos d’água (Pallas, 2014) é um livro de contos. Histórias curtas, mas muito densas, pois cheias de vida real. Talvez não a minha vida ou a sua, mas de uma enorme parcela da população do planeta (e a maior parcela da população brasileira) que, via de regra, não tem direito à voz nem à vez: a história de vidas pretas que vão se transformando em “palavras plenas de sentido ou carregadas de vazio dependuradas no varal da linha”. A autora desse livro que, sim, nos faz encher os olhos d’água, é preta, e muito trapo pendurou nos fios da favela antes de se doutorar em Literatura Comparada e se tornar premiada e reconhecida escritora. Conceição Evaristo trabalha a dor como quem borda uma poesia, ressignificando a falta em palavras de pedra e em silêncios d’água.

Ana Boff de Godoy é professora de humanidades na UFCSPA.



"Diga-me com quem tu andas"… E diga-me o que tu lês, escutas e vês no cinema e te direi com quem tu andas. É disso que trata a premiada comédia francesa O gosto dos outros (Le goût des autres, França, direção de Agnès Jaoui), indicada ao Oscar em 2002. De um lado, um rico empresário grosseiro e inculto, casado com uma decoradora fútil e cafona que transformou sua casa em uma "caixa de bombons"; de outro, uma atriz de teatro boêmia e sofisticada, conhecedora dos clássicos… mas sem um tostão! Como a burguesia e a boemia se relacionam no mundo contemporâneo, em que dinheiro e cultura quase nunca se encontram? Como cada um desses polos faz valer seu poder sobre o outro? E é possível superarmos o nosso desgosto pelo gosto dos outros? Está disponível no site de streaming Petra Belas Artes.

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.