Pílulas de Humanidades

Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

Contar histórias é importante, e a história do feminismo ainda está sendo escrita e, portanto, contada. Mas, durante muito tempo, homens brancos contaram histórias com protagonistas igualmente homens e brancos. Mulheres e pessoas não brancas eram, no máximo, objetos que ilustravam as façanhas dos verdadeiros “heróis”. Precisamos conhecer o passado para compreender o presente. Saber o que já foi proibido para quase todas as mulheres (e que ainda é proibido para muitas) e valorizar as lutas do passado que nos permitem, no presente, fazer coisas corriqueiras como estudar, trabalhar fora de casa de modo igualmente remunerado, dirigir um carro, votar, escolher se e com quem casar, escolher continuar ou não casada, escolher ter ou não filhos, e quando, e com quem. Mulheres na luta: 150 anos em busca de liberdade, igualdade e sororidade (Editora Seguinte, 2019), de Marta Breen e Jenny Jordahl, conta, de modo leve e lindamente ilustrado, parte da história de lutas e conquistas das mulheres. Ah, e não esqueça que elas podem contar essa história e você pode escolher ler e falar sobre ela, apenas porque muitas mulheres lutaram e morreram para que nós, no presente, sejamos, ao menos, um pouco mais livres do que nossas antepassadas. Então, olhe para o presente no modo crítico e responda: o que ainda precisamos fazer?

Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.

Este momento de pandemia não está fácil pra ninguém. Mas já pensou como é nascer em meio à pandemia? E em como é parir nessa situação? Pois Talíria Petrone faz um precioso relato de seu período final de gestação (coincidente com o início da chegada da Covid-19 no Brasil), de seus medos, anseios, angústias e esperanças. (Re)nascer em tempos de pandemia: uma carta à Moana Mayalú (Boitempo, 2020) é o que título diz: uma carta à sua filha sobre a complexidade que envolve o nascer e o tornar-se mãe, mas é muito mais. É uma carta para todas as filhas e todos os filhos deste país. Desenhando, com as palavras, o retrato do Brasil, da situação de sua gente, de suas cores e suas dores, Talíria discorre sobre a dificuldade de ser mulher no Brasil; de ser mulher negra; de ser mulher negra e pobre; de ser mulher negra, pobre e mãe; de ser mulher negra, pobre e mãe de meninas no Brasil... de ser. Não é, de fato, uma carta cor-de-rosa, mas uma carta necessária e potente, que transborda amor pela sua filha que está por vir e pelo país pelo qual a autora luta todos os dias para (re)construir. É uma lição de amar, para o que “é preciso coragem para ser serena, coragem para se revoltar”.

Ana Boff de Godoy é professora do DEH/UFCSPA.

O diretor americano Joseph Losey tinha o dom da provocação. Em O Criado (Reino Unido, 1963), Losey lança um olhar crítico sobre uma instituição da elite britânica: a relação entre o amo e o criado. Barrett (Dirk Bogarde) é um mordomo culto e educado, como quer o clichê do mordomo inglês. Ele é contratado por um jovem playboy londrino (James Fox). Parece o criado perfeito, mas logo tudo passa a se inverter sutilmente. Afinal, quem só sabe ser servido acaba se tornando escravo de quem o serve… O roteiro, adaptado pelo dramaturgo Harold Pinter, expõe as tensões de classe (mas também sexuais) que existem entre patrão e empregado. Quem gostou do recente filme coreano Parasita vai encontrar em O Criado um maravilhoso e clássico antecessor. Está disponível em streaming no site Petra Belas Artes.

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

50 brasileiras incríveis para conhecer antes de crescer (Editora Galera, 2018), de Débora Thomé é um livro infanto-juvenil lindo no conteúdo e na aparência! Um livro que eu gostaria de ter lido quando era uma criança, e que me deixa muito feliz agora que sou adulta, pois, finalmente, um livro assim existe! E, por que, finalmente? Porque finalmente há livros que dizem, pelo exemplo, às meninas que elas podem ser o que elas quiserem. Ao contar a história de tantas mulheres incríveis, brasileiras, como nós, esse lindo livro diz às meninas: “Está vendo?! Elas fizeram o que sonharam fazer. E você?”. Um livro para ser lido por e com crianças... Um livro para adultos repensarem as próprias escolhas...

Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA e ama livros feitos para crianças. Fiquem em casa lendo com seus pimpolhos ou lendo e lembrando de quando vocês eram os pimpolhos!

É difícil eu gostar (muito) de um filme norte-americano... Mas Estrelas além do tempo (2016) é simplesmente perfeito! Dirigido por Theodore Melfi, tem no elenco um trio de magníficas estrelas: Taraji P. Henson, Octavia Spencer e Janelle Monáe. Elas encarnam as protagonistas Katherine Johnson, Dorothy Vaughn e Mary Jackson, três mulheres reais, matemáticas e que, em 1961, trabalhavam como “computadoras” da NASA. Sim! Elas eram responsáveis (usando somente seus brilhantes cérebros) pelos cálculos que hoje os computadores fazem. E, ainda assim, precisavam provar que mereciam ser respeitadas pelo simples fato de serem mulheres e, sobretudo, negras. Essas estrelas negras, muito além do seu tempo, possibilitaram à NASA desbravar o espaço e, mais do que isso, desbravaram, elas mesmas, um espaço que nenhuma mulher negra, até então, tinha conquistado nos EUA. Simplesmente inspirador!

Ana Boff de Godoy é professora do DEH/UFCSPA e profundamente grata a todas as mulheres que abriram caminhos para que ela pudesse chegar até aqui.