Pílulas de Humanidades
Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

Henry David Thoreau é um autor muito lido e pouco conhecido. Seu livrinho A desobediência civil é famoso e lido por adolescentes que sonham em mudar o mundo. Mas quem foi o homem de quem se sabe que morou numa cabana no meio do mato, escreveu sobre desobediência e sobre a experiência de construir a própria casa e não pagar impostos? A biografia escrita por Marie Berthoumieu e Laura El Makki (Henry David Thoreau: biografia, L&PM, 2019) nos conta um pouco sobre a vida de um escritor e leitor voraz, que estudou em Harvard, quando ainda não era uma grande universidade, mudou de nome e, de fato, construiu sua cabana e nela viveu por dois anos. Vamos descobrir, contudo, que ele estava a poucos quilômetros da casa de seus pais, que moravam numa cidade perto, que o livro escrito sobre essa experiência, Walden: a vida nos bosques, não é um relato preciso e contém criações para deixar a história mais interessante, mesmo que menos fidedigna, e que morreu jovem, com 44 anos, de pneumonia, deixando muitos diários, publicados postumamente.
Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.

Stanno tutti bene (que deveria ter sido traduzido por Estão todos bem, mas...né?!) é um clássico italiano daqueles de apertar, encher, tremer e aquecer o coração. Dirigido por Giuseppe Tornatore e estrelado por Marcello Mastroiani, esse belíssimo filme de 1990 é atemporal e conta as aventuras de Matteo Scuro, um funcionário público aposentado que cruza e descruza a Itália para visitar seus filhos (todos adultos e donos de seus próprios narizes) e se certificar de que estão, de fato, todos bem. E o que ele descobre é que... ah, descubra você mesmo/a! Disponível no YouTube.
Ana Boff de Godoy é professora de língua e cultura italiana do DEH/UFCSPA.

A história que Paulo Cesar Teixeira conta em A esquina maldita (Libretos, 2012) deve parecer, aos olhos dos frequentadores da UFCSPA e do Campus Central da UFRGS, insólita. Se alguém contasse aos nossos colegas e alunos que na quadra onde se encontram a Oswaldo Aranha com a Sarmento Leite, nos anos 60 e 70, estavam concentrados alguns dos bares mais badalados da cidade, eles acreditariam? Pois creiam. Alaska, Copa 70, Estudantil e, o último a fechar as portas, Marius, eram o habitat de estudantes, jornalistas, atores e demais aspirantes ao meio intelectual porto-alegrense que, misturados aos “boêmios profissionais”, compunham um quadro muito interessante de sociabilidades nos já distantes anos da Ditadura Militar. Um belo olhar sobre uma geração e sobre um pedaço da cidade onde vivemos.
Éder Silveira é historiador e professor do DEH/UFCSPA.

Todas as manhãs do mundo (França, Alain Corneau, 1991) é um filme que não poderia não ser uma joia. Situado no século XVII, o roteiro se baseia num livro de um dos maiores escritores franceses contemporâneos, Pascal Quignard. Reconta livremente a biografia do compositor barroco Marin Marais (Gérard Depardieu), famoso e ambicioso músico do Rei em Versalhes. Marais desenvolve uma relação tensa com seu mestre, o recluso Monsieur de Sainte-Colombe, que vive isolado, imerso na música e na lembrança de sua falecida esposa. Não bastasse a história emocionante, a cenografia se inspira na pintura da época, e a trilha sonora barroca, com o violoncelista Jordi Savali, é deslumbrante. O filme é perfeito para quem gosta de história, de arte - e de música, é claro. Está disponível em streaming no site Petra Belas Artes.
Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

Imagine viver em um mundo de violência física e psicológica, em que você não tem direito de expressar suas ideias, outras pessoas decidem o seu destino e você se encontra à margem de todas as histórias por causa de seu gênero e da cor da sua pele? Esse é o resumo da vida de Celie, personagem principal de A cor púrpura (1982), que ainda criança é abusada sexualmente pelo pai, engravida duas vezes e é dada em casamento a um vizinho bem mais velho, que a maltrata. A narrativa se desenvolve por meio das cartas que Celie escreve a Nettie, sua irmã que vai embora de casa muito jovem, fugida dos maus tratos, e a Deus. Embora o romance escrito por Alice Walker (primeira mulher negra a ganhar o Pulitzer por ficção!) esteja ambientado nos Estados Unidos da primeira metade do século XX, encontra ecos ainda hoje por nos fazer pensar sobre as relações sociais estabelecidas a partir das desigualdades de gênero, raça e classe. Esse é, talvez, um dos mais importantes romances da história da literatura contemporânea.
Aline Aver Vanin é linguista e professora do DEH/UCSPA.





