Pílulas de Humanidades

Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

Parte do processo de opressão das mulheres, imposto por muitos anos pelo patriarcado (que ainda nos oprime) perpassava pelo apagamento das histórias das grandes mulheres do passado e do presente. A ausência de exemplos era, inclusive, um argumento para confirmar a falta de capacidade das mulheres. Há alguns anos, e cada vez mais, mulheres pesquisam sobre mulheres e contam suas histórias. Precisamos aprender e contar para as novas gerações como os que estavam no poder foram cruéis com as mulheres e como usaram o poder para impedir ações. Mulheres incríveis (Astral, 2017) de Kate Schatz, ilustrado por Miriam Klein Stahl, conta a história de muitas mulheres que lutaram e lutam por todas nós. Conheçam histórias de mulheres e contem tais histórias para tantas outras mulheres, de todas as idades, crianças, idosas. Mostrem como o passado foi diferente do que costumam nos contar e como mulheres também podem atuar na esfera pública e fazer coisas maravilhosas. Leiam escritos de mulheres! Leiam sobre mulheres! E você, o que gostaria de fazer ou ser?

Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.

Ô de casas são as pílulas musicais diárias de Mônica Salmaso, publicadas em seu canal no Youtube e em sua página no Facebook. Mas diferente da gente aqui, que só dá a dica, Mônica canta mesmo, e é lindo. A cada dia ela canta com um convidado ou uma convidada diferente, trilhando a Música Popular Brasileira de uma maneira contundente e emocionante. Ela está em casa (como todos e todas deveriam estar), seu convidado ou convidada também, mas a sintonia é tão grande que parece que estão juntinhos e, mais do que isso, junto de nós! Já passaram por ali Yamandú Costa, João Bosco, João Lyra, Leila Pinheiro, Ná Ozzetti, Zélia Duncan... Pra quem gosta de MPB é um prato cheio. Pra quem não conhece bem, é uma forma maravilhosa de conhecer. Um verdadeiro acalento pra alma nesses tempos difíceis.

Ana Boff de Godoy é professora do DEH/UFCSPA e adora música boa.

Em partes dos continentes africano e asiático, mas também nas Américas, as mulheres não têm os mesmos direitos que os homens, homossexuais são perseguidos por motivos religiosos e as famílias têm uma rígida estrutura patriarcal. Pode parecer que as sociedades ocidentais nunca foram assim. O livro do historiador inglês Faramerz Dabhoiwala, As Origens do Sexo (2013), mostra o contrário. Noções tradicionais e repressivas sobre a sexualidade vigiam na Europa até os séculos XVII e XVIII. Para Dabhoiwala, o iluminismo do século XVIII foi uma ruptura. Marcou uma revolução nas concepções e nas práticas dos homens e mulheres das elites da época quanto à naturalidade e à individualidade de suas vidas sexuais. Queriam libertar-se da autoridade da comunidade e da religião nas suas camas. Ao mesmo tempo, a naturalização do sexo criou outras formas de exclusão, cavando um fosso ainda mais profundo entre o "normal" ou o "saudável" e o "anormal" ou a "aberração". Trata-se de um livro importante para quem quer entender a origem das nossas ideias modernas sobre o sexo e os limites em que elas ainda estão encerradas.

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

Leve e engraçada, e, ao mesmo tempo, profunda e inteligente. A série argentina Casi Feliz, ou Quase Feliz, como traduzida para português, apresenta a rotina de Seba, um radialista de Buenos Aires, quase famoso e, principalmente, quase feliz, como reverbera no belo tema de abertura que comparte o nome com a série – um bonito electro pop de arranjo infantil e letra arrebatadora do conjunto argentino Miranda!. Seba desliza por uma Buenos Aires linda e vibrante, evidentemente pré-pandemia, cheio de quase felicidades e problemas existenciais de sujeito urbano e branco de classe média. Nunca está presente: sempre está com a cabeça em outro lugar. É um caladão que vive de falar a milhões de pessoas no rádio. É um sem-graçola que vive de fazer humor, quase sempre do tipo em que as pessoas riem dele e não com ele. Notoriamente apaixonado por Pilar, sua linda e também problemática ex-mulher, não consegue conquistá-la de volta. Apesar de honestamente tentar, não consegue ser o bom pai que deseja para seus filhos, opa, “filhes”gêmeos. Ele tenta se conectar com as pessoas, mas sempre está na hora errada, no lugar errado ou fazendo a coisa errada – o que se traduz em cena hilariantes e outras honestamente miseráveis, mas prototípicas da miséria existencial que muitos de nós enfrentamos no cotidiano. Dá para rir e também para pensar na vida. Disponível na Netflix.

William Kirsch é professor de inglês do DEH/UFCSPA.

Contar histórias é importante, e a história do feminismo ainda está sendo escrita e, portanto, contada. Mas, durante muito tempo, homens brancos contaram histórias com protagonistas igualmente homens e brancos. Mulheres e pessoas não brancas eram, no máximo, objetos que ilustravam as façanhas dos verdadeiros “heróis”. Precisamos conhecer o passado para compreender o presente. Saber o que já foi proibido para quase todas as mulheres (e que ainda é proibido para muitas) e valorizar as lutas do passado que nos permitem, no presente, fazer coisas corriqueiras como estudar, trabalhar fora de casa de modo igualmente remunerado, dirigir um carro, votar, escolher se e com quem casar, escolher continuar ou não casada, escolher ter ou não filhos, e quando, e com quem. Mulheres na luta: 150 anos em busca de liberdade, igualdade e sororidade (Editora Seguinte, 2019), de Marta Breen e Jenny Jordahl, conta, de modo leve e lindamente ilustrado, parte da história de lutas e conquistas das mulheres. Ah, e não esqueça que elas podem contar essa história e você pode escolher ler e falar sobre ela, apenas porque muitas mulheres lutaram e morreram para que nós, no presente, sejamos, ao menos, um pouco mais livres do que nossas antepassadas. Então, olhe para o presente no modo crítico e responda: o que ainda precisamos fazer?

Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.