Os nazistas avançam sobre a Áustria em 1938. A Europa assiste à anexação, sem mover uma palha: nada nos acontecerá, Hitler vai parar, os nazistas ladram mas não mordem… Éric Vuillard conta esse desastre histórico em A Ordem do Dia, narrativa polêmica que recebeu o Prêmio Goncourt em 2017 (maior prêmio literário da França). Muitos foram cúmplices de Hitler: a burguesia alemã o financiou; a Inglaterra calou; a França virou o rosto; a Áustria se submeteu com alegria. Empresas alemãs e estrangeiras até hoje atuantes se beneficiaram do trabalho barato nos campos de concentração (Bayer, BMW, Shell, Volkswagen, Krupp, Siemens, Ford, IBM). Éric Vuillard constrói as emoções e os pensamentos dos personagens principais dessa história de covardia e de mesquinhez, com o olhar implacável da História que apura as responsabilidades e aponta cúmplices. Afinal, quando a besta do fascismo mostra a cauda, nada fazer é ser também culpado.

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.