O chamado "Fofão" era um personagem clássico e anônimo de São Paulo. Vagava nas imediações da Rua Augusta com o rosto desfigurado por aplicações excessivas de silicone. Em 2017, o jornalista Chico Felitti se interessou pelo personagem, que provocava medo e sarcasmo em parte da população. E descobriu que o Fofão da Augusta era na realidade Ricardo, um antigo cabeleireiro das estrelas e figura da noite paulistana. Por uma mistura de esquizofrenia, exclusão social e desastre financeiro, Ricardo viu-se na situação de pedir dinheiro na rua. Felitti também descobriu o amor da vida de Ricardo: Vagner, outro personagem da noite nos anos 80, que abandonou Ricardo para realizar o sonho de viver em Paris. Tornou-se Vânia, profissional do sexo conhecida na capital francesa, apesar das deformações também deixadas no seu rosto pelo silicone industrial. É difícil não se emocionar com o livro-reportagem Ricardo e Vânia (Todavia, 2019), que é um exercício baudelairiano nos nossos tempos: o de ver os invisíveis da metrópole, de dar-lhes um nome, uma vida e uma história, para além do rosto desgarrado e amedrontador que encontramos nas ruas.

Éder Silveira é historiador e professor do DEH/UFCSPA.