Pílulas de Humanidades
Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

Qual é o casal de intelectuais mais famoso do século XX? Se você não sabe a resposta, passe diretamente para a parte em que recomendo o livro e comece a leitura imediatamente. Se você pensou em Sartre e Simone de Beauvoir, a resposta está correta. E se a pergunta seguinte for: e pelo quê? Espero que você também saiba responder: pelo casamento aberto. (E agora imagine um emoji bufando!) Eles escreveram muito ao longo de mais de cinco décadas. Escreveram, literalmente, dezenas de livros e de artigos. Tomaram partido nas questões políticas mais importantes da época em que viveram. Simone de Beauvoir é certamente a filósofa mais importante para a consolidação do feminismo no Ocidente na segunda metade do século XX. E as pessoas falam do quê? Do casamento deles. Casamento que nem casamento foi... Enfim, há poucos anos alguns escritos, se tornaram de públicos. Especialmente cartas. E mais uma biografia sobre Simone de Beauvoir foi escrita. E muito bem escrita! Fica a dica! Simone de Beauvoir: uma biografia, de Kate Kirkpatrick, Editora Planeta, 2020. Sim, o livro é realmente recente! ;-)
Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia (e feminista!)

Finalmente assisti Rocketman (do diretor Dexter Fletcher), o vencedor do último Oscar de Melhor Canção-Original (está na NET). Esperava assistir a um filminho, com boa música, mas assisti a um belo filme, de muita profundida psicológica, de muita delicadeza e beleza. Um filme que me fez gostar ainda mais de Elton John, não somente por aquilo que o torna comum (infelizmente, a parte triste de sua história acontece a cada esquina), mas por aquilo que o torna particular, especial mesmo. Sempre soube que era um baita músico, mas não sabia que era um virtuose! E isso me remeteu a outro filme, o que faz dessa pílula uma dobradinha improvável: Amadeus (do diretor Milos Forman, de 1984). A história de Wolfgang Amadeus Mozart e Antonio Salieri, ambos compositores, sendo o primeiro um transgressor para a época (ainda que hoje o consideremos clássico). Vi esse filme no cinema, aos 9 anos de idade, e fiquei muito impressionada. Revi agora, e ele ficou ainda mais gigante, mesmo a partir da telinha do Youtube. Não perde!
Ana Boff de Godoy é professora de coisas improváveis e muito humanas.

O escritor guatemalteco Augusto Monterroso é conhecido pela maestria com que escrevia histórias breves. O seu conto mais conhecido tem apenas 37 letras. Ei-lo: “Quando acordou o dinossauro ainda estava lá”. Em A ovelha negra e outras fábulas, Monterroso revira um dos gêneros literários mais antigos, a fábula, usando-a como arma satírica para criticar a política, uma das suas paixões e mote constante em sua obra. Neste sentido, as fábulas, que como as de Esopo usam animais para narrar histórias demasiadamente humanas, são uma bela provocação para pensarmos os discursos políticos que nos cercam. Antídoto contra a mentira, a ficção é uma das nossas formas de pensar e representar o real.
Augusto Monterroso. A ovelha negra e outras fábulas. Tradução de Millôr Fernandes. São Paulo: Cosac Naify, 2014.
Éder Silveira é historiador e professor do DEH.

Gosta de animes e de mangás? Muitas das histórias e do imaginário na cultura japonesa contemporânea provêm do Japão antigo. A mitologia do samurai, da gueisha, do xogum, dos fantasmas guerreiros, das lutas marciais, dos códigos de honra e de amizade influenciam diretamente o Japão da alta tecnologia e das cidades ultramodernas. Uma das portas de entrada para esse mundo fascinante do Japão antigo é o cinema (como nos filmes de samurai, lembra?). No Japão não faltam grandes diretores, e Kenji Mizoguchi é um dos maiores entre os grandes. No seu Contos da Lua Vaga depois da Chuva (1953), a história se passa nas guerras civis no Japão do século XVI. Dois irmãos querem fazer fortuna rapidamente, vendendo peças de cerâmica na capital. Um aspira a tornar-se samurai, e o outro casa com uma rica e misteriosa cliente, que se revela muito diferente (e mais assustadora) do que ele esperava… Essa obra-prima do cinema, baseada em um clássico da literatura japonesa, foi indicada ao Oscar e ganhou o Leão de Prata de Veneza. Impressionou grandes diretores, do americano Martin Scorsese ao russo Andrei Tarkovski. Cada tomada é uma obra de arte; as emoções são intensas, ao mesmo tempo em que se exprimem com delicadeza, e a história nos revela um mundo em que a história e o sobrenatural se misturam. Está gratuitamente disponível no site Petra Belas Artes, em streaming.
Rodrigo de Lemos é doutor em Letras pela UFRGS e professor de língua e cultura francesa na UFCSPA.

Colocar-se no lugar do outro, especialmente para tentar compreender a dor e a dificuldade de sentir o que o outro sente, é árduo. Nos últimos anos, foram lançados no Brasil muitos livros sobre feminismo negro, tanto livros clássicos, quanto livros de jovens escritoras negras. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano, de Grada Kilomba (Editora Cobogó, 2019), publicado originalmente na Alemanha em 2009, é um desses livros. A autora é uma mulher negra, portuguesa, que mora há muitos anos em Berlim. Psicologia e filosofia, seus cursos de formação acadêmica da graduação ao doutorado, se entrelaçam numa narrativa, que é tanto da autora, quanto das entrevistadas, igualmente mulheres e negras, igualmente vivendo em Berlim, e cotidianamente lembradas que são as outras em relação às mulheres brancas, que são africanas, porque se negras, não podem ser estadunidenses e européias, como, de fato, são, porque se negras, seus corpos são vistos como exóticos que podem ser, então, examinados e demandam uma resposta. A narrativa de Grada Kilomba nos convida a tentar compreender um pouco da realidade de mulheres negras, sem o sofrimento diário do que significa ser um corpo negro em países que se tomam como “brancos”, mesmo que, de fato, não sejam. E esta pílula é um convite do convite: já que não podes sair de casa mesmo, que tal se ocupar durante algumas horas com a bela escrita de Grada Kilomba?
Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia da UFCSPA. Morou em Berlim por dois anos, de 2005 a 2007, durante o período de doutorado sanduíche, e, assim como a autora, é doutora em Filosofia (UFRGS).





