Colocar-se no lugar do outro, especialmente para tentar compreender a dor e a dificuldade de sentir o que o outro sente, é árduo. Nos últimos anos, foram lançados no Brasil muitos livros sobre feminismo negro, tanto livros clássicos, quanto livros de jovens escritoras negras. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano, de Grada Kilomba (Editora Cobogó, 2019), publicado originalmente na Alemanha em 2009, é um desses livros. A autora é uma mulher negra, portuguesa, que mora há muitos anos em Berlim. Psicologia e filosofia, seus cursos de formação acadêmica da graduação ao doutorado, se entrelaçam numa narrativa, que é tanto da autora, quanto das entrevistadas, igualmente mulheres e negras, igualmente vivendo em Berlim, e cotidianamente lembradas que são as outras em relação às mulheres brancas, que são africanas, porque se negras, não podem ser estadunidenses e européias, como, de fato, são, porque se negras, seus corpos são vistos como exóticos que podem ser, então, examinados e demandam uma resposta. A narrativa de Grada Kilomba nos convida a tentar compreender um pouco da realidade de mulheres negras, sem o sofrimento diário do que significa ser um corpo negro em países que se tomam como “brancos”, mesmo que, de fato, não sejam. E esta pílula é um convite do convite: já que não podes sair de casa mesmo, que tal se ocupar durante algumas horas com a bela escrita de Grada Kilomba?

Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia da UFCSPA. Morou em Berlim por dois anos, de 2005 a 2007, durante o período de doutorado sanduíche, e, assim como a autora, é doutora em Filosofia (UFRGS).