O clima de pandemia pode ser triste, e, às vezes, tudo o que se quer é esquecer um pouco as notícias com um livro que nada tenha a ver com temas lúgubres. Se é assim, por que A peste, romance lançado pelo escritor francês Albert Camus em 1947, voltou a ser best-seller na Europa e nos EUA e esteve entre os mais vendidos da Amazon desde o começo da pandemia de COVID-19? Talvez porque a arte e a literatura não servem apenas a nos distrair das nossas tristezas e das nossas dificuldades quotidianas, mas também a representá-las, significá-las e nos ajudar a vivê-las... É certamente isso que tantos leitores têm buscado nesse clássico da literatura dita existencialista sobre a luta do dedicado médico Bernard Rieux contra um surto de peste bubônica que se espalha na cidade argelina de Oran. Rieux tem de debelar resistências mil: o negacionismo das autoridades, as resistências da população, a perda de amigos e de pacientes para a doença. Ao contrário do que se poderia esperar de uma narrativa com esse tema, a mensagem de Camus nada tem de derrotista: frente à morte e à doença, frente também à dificuldade dos homens de encarar o real, há lugar para a coragem e para a esperança, mesmo num mundo sem Deus. Na situação difícil em que estamos, podemos descobrir motivos para seguirmos fortes com a visão humanista de Camus.

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa na UFCSPA.