Pílulas de Humanidades
Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

Há muitas resenhas sendo publicadas sobre O avesso da pele (Ed. Companhia das Letras, 2020), obra celebrada do patrono da Feira do Livro de Porto Alegre deste ano. E muito se pode dizer sobre esse livro poderoso, que li em um dia só, tamanho impacto que tive com a narrativa de um filho sobre a vida e a morte do pai, assassinado em uma abordagem policial. No jogo construído em que as vozes narrativas variam, Jeferson Tenório nos conduz com maestria por uma história que perpassa a memória da vida de um professor marcado pelo preconceito racial e pela exclusão. Esses aspectos poderiam ser pano de fundo da obra, se não saltassem das páginas, justamente por serem, ainda, tão determinantes dos destinos de pessoas negras. Trata-se de uma obra necessária para que entendamos concretamente a persistência do racismo estrutural no Brasil. A história nos angustia, mas é necessária. Posso dizer, sem nenhum medo de errar, que não é possível sair dela do mesmo jeito que se entrou.
Aline Vanin é linguista in(ter)disciplinar e professora no DEH.

Vi Estela sem deus (Ed. Zouk, 2018), segundo livro de Jeferson Tenório, nascer. Fui uma das primeiras leitoras dos originais desse livro potente, e naquelas páginas estavam as experiências de uma menina que queria ser filósofa, e que dialoga com um deus que, acredita, se esquece dela às vezes. Estela, menina negra e pobre nascida em Porto Alegre, é filha de empregada doméstica e de pai ausente. Como outros personagens de Tenório, a vida sofrida a faz amadurecer cedo demais. Ela compartilha as experiências com a violência direta que ela e a família sofrem, e os elementos ficcionais retratam as vivências das pessoas que estão na intersecção de classe, de raça e de gênero no Brasil. A obra recebeu o Prêmio de Melhor Narrativa Longa da Associação Gaúcha de Escritores.
Aline Vanin é linguista in(ter)disciplinar e professora no DEH.

Nesta semana inicia a Feira do Livro de Porto Alegre, uma celebração aos livros e à literatura. O patrono, Jeferson Tenório, é o primeiro homem negro a receber tal distinção, e nós não podemos deixar de falar da obra dele. Seu primeiro livro publicado, O Beijo na Parede (Ed. Sulina, 2013) nos coloca na perspectiva de João, um menino de 11 anos que é forçado a amadurecer precocemente, e a entender seu não-lugar no mundo. Nascido de mãe negra e de pai branco, o protagonista perde os dois muito cedo; é adotado por uma prostituta; convive com travesti; mora em um cortiço para os lados da Farrapos, em Porto Alegre; e passa fome. Suas experiências tão duras são contadas em primeira pessoa, e nós somos levados pela voz desse menino que nada tem, e que pouco espera da vida. A obra levou o prêmio de Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores.
Aline Vanin é linguista in(ter)disciplinar e professora no DEH.

Nos anos 70 e 80, Nova York não apenas era o umbigo do mundo; era também uma das suas metrópoles mais decadentes: gangues, drogas, bancarrota, pane dos serviços públicos… Uma distopia - que acabaria na gentrificação dos anos 90 e 2000. E, no entanto, foram anos de ouro na vida cultural da cidade. Stop making sense (1984), do Talking Heads, é a cara dessa época. Enquanto filme de rock, é próximo à perfeição, como disse na New Yorker a importantíssima crítica de cinema Pauline Kael. E mostra o espírito de Manhattan naqueles anos, misturando disco e papo cabeça, punk rock e multiculturalismo, ironia pós-moderna, arte contemporânea e performance. O show começa por David Byrne sozinho cantando o hit "Psycho Killer", com um toca-fitas e os bastidores à mostra. A cada música, um membro da banda aparece, e operários trazem uma parte do cenário ou um elemento da iluminação. Ao fim, com o palco cheio, David Byrne entra robótico, vestindo um terno cinza com ombreiras gigantes, ícone dos anos 80. Um show in progress, como se dizia naqueles tempos... E indício de que uma dose de decadência pode fazer muito bem às classes criativas de uma cidade. O filme-show está completo no YouTube:
Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

Chimamanda Ngozi Adichie é conhecida por alguns opúsculos sobre feminismo e racismo. Mas Chimamanda é, antes de tudo, uma brilhante escritora de prosa literária. Americanah (Companhia das Letras, 2014) é um romance longo (que talvez devesse ter sido recomendado antes do retorno das aulas em Ead-emergencial...) que nos conta a história de uma mulher nigeriana negra, que só entende o que significa ser vista como negra e, por isso, discriminada, quando se muda para os Estados Unidos. Longe de onde se sente em casa, entenderá como sente falta de estar numa terra que considera sua.
Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.





