Pílulas de Humanidades
Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

Adoro viajar pra dentro dos livros e descobrir um pouco sobre a forma de viver em lugares completamente desconhecidos pra mim. Às vezes essa viagem é de pura delícia e encantamento; outras vezes, mal a viagem começa e penso: o que vim fazer aqui?! Mas seja qual for minha sensação inicial, acabo sempre descobrindo que, por mais distinta (e até assustadora) que seja a cultura de um lugar, o que vai dentro da gente, independentemente de onde estejamos no mapa, não é tão diferente assim. Pois foi isso que senti viajando com Adah, personagem (autobiográfica) da escritora nigeriana Buchi Emecheta, em seu livro Cidadã de segunda classe, escrito em 1974 - mas que só ganhou tradução para o português em 2018, pela editora Dublinense. E este, de fato, é um livro de viagem, pois Adah, enfrentando todas as amarras de sua cultura, parte para Londres a fim de realizar seu sonho. Um sonho que não foi cor-de-rosa, certamente, mas que possibilitou a ela a descoberta de si mesma.
Ana Boff de Godoy é professora de humanidades da UFCSPA.

Fela Kuti era um ser humano superlativo. Primo do Nobel de Literatura Wole Soyinka, foi um dos músicos africanos mais famosos, militou contra a ditadura da Nigéria, fundou uma comuna dissidente (a República de Kalakuta), perdeu a mãe nos combates contra o governo, casou com 27 mulheres de uma vez, inventou o Afrobeat (mistura de funk, soul, jazz e música iorubá), e, quando morreu em decorrência da AIDS em 1997, um milhão de nigerianos assistiram ao funeral… É impossível indicar só um álbum de Fela Kuti, mas Zombie (1978) é um marco, porque seu conteúdo político foi o estopim das perseguições do governo contra a República de Kalakuta. Era total sua recusa a fazer músicas de 3 minutos para o rádio. No momento em que o pop produzido nos EUA tem sido veículo a uma bem-vinda afirmação das culturas negras, a arte complexa de músicos africanos, como Fela Kuti, mostra que outras formas de fazê-lo também podem ser interessantes, a partir de uma estética desafiadora e inventiva, longe dos padrões da cultura de massa. (A cena de rock na Zâmbia e o jazz de músicos etíopes como Mulatu Astatke também são imperdíveis!)
Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

Wonder women, de Sam Maggs, é um livro maravilhoso com um título ruim. E com um subtítulo igualmente ruim: “25 mulheres inovadoras e pioneiras que fizeram a diferença”. O que a capa não conta é que o livro narra a vida de muito mais do que 25 mulheres e que as mulheres não foram pioneiras em qualquer coisa, mas em áreas consideradas, até hoje como “masculinas”: ciência, medicina, espionagem, inovação e aventura.
E esta é uma pílula dedicada à Mariana, filha da Ana Boff de Godoy, a quem atormento há alguns dias para comprar o livro para a Mari. Mari, se tua mãe não te der o livro de presente, me avisa que eu mesma te dou! (Claro que depois não serei eu a chorar de saudade da filha que se inspirou, especialmente nas dicas de associações que encorajam mulheres a serem o que gostaria de ser. Mas...)
E eis uma pílula com dedicatória mais longa que a própria pílula...
Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.

Isabel Allende é, sem dúvida alguma, uma das maiores escritoras contemporâneas. E isso não é novidade. Desde seu livro de estreia, “A casa dos espíritos” (1982), Allende deixou claro a que veio (afinal, não é qualquer um que tem seu primeiro livro adaptado para o cinema!). Pois seu último romance, Longa pétala de mar (Bertrand Brasil, 2020), mal foi lançado no Brasil e já está na segunda edição. Também pudera... tem todos os ingredientes da boa literatura dispostos na linguagem absolutamente sedutora que Allende domina perfeitamente. O fio condutor é a história de Victor e Roser Dalmau, que se vêm forçados a deixar a Espanha e se exilar no Chile com a ajuda de ninguém menos do que o grande poeta Pablo Neruda, o qual, enfrentando o perigo da Guerra Civil Espanhola que se instaurava com o Golpe de Estado encabeçado pelo General Franco, conseguiu salvar centenas de cidadãos fretando um navio cargueiro, Winnipeg, que os conduziria até a longa pétala de mar. Mas governos autoritários se espalham como vírus, e logo os exilados tiveram que se reexilar, dessa vez na Venezuela, quando um Golpe de Estado liderado por Pinochet derrubou o governo de Salvador Allende, no dia 11 de setembro (sim!) de 1973. Um romance potente, no qual os fatos e os personagens são reais, ainda que habitem a ficção. Quer saber mais? Pois mergulhe nesse livro e ouça Isabel Allende que, no dia de hoje, abre a nossa 66ª Feira do Livro de Porto Alegre, em evento virtual imperdível!
Ana Boff de Godoy é professora de humanidades da UFCSPA.

Há 66 anos, Porto Alegre passa pelo mesmo ritual nos meses de outubro e novembro. A Praça da Alfândega é tomada por bancas, eventos, palestras e autores, a cada Feira do Livro, que ocorre anualmente desde 1955. Neste ano, como tudo o mais, o ritual será um pouco diferente, e toda a programação, além da feira dos expositores, será online. Com o título "Janelas Abertas para a Praça", a Feira de 2020 compreenderá termas como pandemia, ciência, sustentabilidade e diversidade, além das seções tradicionais. A abertura ocorre dia 30 de outubro, com a escritora chilena Isabel Allende (autora de sucessos como "A casa dos espíritos"), em entrevista virtual, às 19h. A epidemia continua, mas a vida literária de Porto Alegre resiste como pode. Vale conferir a programação no site: https://www.feiradolivro-poa.com.br/programacao/
Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.





