Pílulas de Humanidades

Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

Há duas grandes histórias de amor entre os filósofos do século XX. Uma delas se passa entre Martin Heidegger e Hannah Arendt. Há pouca certeza sobre o que de fato ocorreu. Recomendo um livro com cinquenta anos de correspondência entre eles: Hannah Arendt, Martin Heidegger, Correspondência, 1925-1975 (Relume Dumará, 2001). As cartas são chatíssimas! E não há fatos picantes em suas páginas... E por que recomendo?! Porque também pode ser interessante ler o que é chato! Não é um livro para se ler na beira da praia, durante uma tarde ensolarada. Mas é uma boa leitura para um dia de chuva...

Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.

Livros sempre foram objetos mágicos. Há os que simplesmente aparecem na minha frente quando precisam ser lidos ou, literalmente, despencam de alguma prateleira em cima de mim. Este foi assim. Comprado logo que foi lançando (2009) e sempre deixado pra depois, cansou de me esperar e ploft! Me lançou em uma viagem profunda para dentro de mim, me fazendo revisitar as cores da minha própria infância já desbotada; as dores e as aventuras da primeira e da segunda gestação, os sons dos meus filhos ainda pequenos, depois maiores e agora adolescentes; meu entorno, meus relacionamentos; minhas escolhas, meus erros, meus acertos; o que de mim se fez aparente e o que se escondeu ou foi escondido... Um grande e poderoso percurso por meio desse livro, que é, na verdade, uma coletânea de pequenos textos de Laura Gutman, polêmica terapeuta e escritora argentina (que talvez gere mais controvérsia pelo que os outros dizem dela do que propriamente pelo que ela diz...). Um livro para mães que não querem receitas de como criar seus filhos, mas que desejam enxergar melhor a si mesmas por meio desses filhos e, quem sabe até mesmo de suas próprias mães.

Ana Boff de Godoy é mãe e professora de humanidades da UFCSPA.

Michel Houellebecq é um dos autores franceses contemporâneos mais lidos e ao mesmo tempo um dos menos simpáticos, por seu temperamento e suas opiniões por vezes voluntariamente intragáveis. Em uma passagem por Porto Alegre, o enfant terrible causou furor e constrangimentos… (Mas essa é outra história!). Nada disso impediu Serotonina de ser o lançamento literário de 2019. Florent é um homem deprimido, que recorre a medicações para continuar vivendo - elas o deixam artificialmente menos infeliz e sexualmente impotente. Enquanto isso, ao seu redor, a velha França e a Europa desmoronam, sob o impacto do liberalismo e da globalização. Com humor negro e com uma ironia amarga, o livro parece apreender o clima de insatisfação prevalente em alguns meios sociais na nossa época, que redundou também na revolta dos coletes amarelos em Paris. Da mesma forma, evoca temas quentes do nosso noticiário: a ebulição do populismo conservador, a influência da neuro-psiquiatria, a masculinidade em crise, a liberação da mulher pequeno burguesa, a segregação urbana e social, o cosmopolitismo e o enraizamento nacionalista…  

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

Como é ser aluno de um gênio? Como se sente quem ouve e vê a apresentação de um pensamento em construção? Roberto Machado é um dos grandes professores de Filosofia do Brasil. Como escritor, também é brilhante. Eis que ele nos conta como foi ser aluno de Foucault nos anos 1970, em Paris. Os coadjuvantes desta história são Gilles Deleuze, Sartre, os cursos abertos nas universidades de Paris, dentre outros, uma história nada singela narrada em Impressões de Michel Foucault (n-1 edições, 2017). Termino esta pílula lamentando que não tenhamos a tradição de cursos abertos no Brasil, o que, me parece, seria a melhor expressão do que se entende como extensão universitária e decorre do reconhecimento de que as portas universitárias nunca deveriam estar fechadas, nem para os que não passaram por elas como alunos formais, tampouco para os que já não são mais alunos, mas entendem que sempre há algo mais a aprender. Ah, se não ficou claro, cursos abertos são cursos para os quais não é necessário qualquer inscrição ou vínculo institucional para assistir. São aulas oferecidas para qualquer um, basta chegar e assistir. Bacana, não? Talvez as lives de hoje sejam uma nova versão de tais cursos, mas sem o charme da presença de professor e alunos.

Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.

Quem escolhe seguir uma profissão da área da saúde ou da educação (como nós, aqui da UFCSPA), escolhe também cuidar. Mas será que sabemos, de fato, cuidar dos outros, de nós mesmos, do lugar em que vivemos? Em Saber cuidar: ética do humano - compaixão pela terra (Vozes, 2017), Leonardo Boff propõe uma ética do cuidado a partir da análise de uma série de mitos e fábulas exemplares; analisa a natureza do cuidado em suas múltiplas dimensões e em sua relação com o trabalho; examina as formas de manifestação e de materialização do cuidado para com nós mesmos, para com o outro, para com a natureza; e nos desafia a tomarmos parte de uma rede de cuidado, alimentando-a e fazendo-a crescer de modo a envolver a todos os seres de nosso planeta. Um grande desafio, sem dúvida, mas perfeitamente exequível se cada um de nós fizer a sua parte!

Ana Boff de Godoy é professora de humanidades da UFCSPA e acredita num mundo melhor.