Pílulas de Humanidades
Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

Uma dama aristocrática move-se com discrição junto à imperatriz Teishi, no Japão, entre os séculos X e XI. E escreve ao sabor do acaso, sobre tudo e sobre nada, para si mesma. Um dia, por acidente, essas folhas vazam… E se tornam um dos maiores clássicos da literatura japonesa. Essa seria uma das origens possíveis do Livro do Travesseiro (2008, editora Escritos), da cortesã e escritora Sei Shonagon (c.966-1017). O livro se compõe das observações soltas dessa observadora arguta do mundo, da natureza e da sociedade de sua época. Desfilam em suas páginas fofocas, intrigas, maledicências, poemas, narrativas, regras de etiqueta, preferências pessoais (por flores, paisagens, cortes de quimonos) e as famosas listas, tocantes, cômicas e surpreendentes (“Coisas que constrangem”, “Coisas que aparentam pobreza”, “Coisas que não combinam”). Não se lê o Livro do Travesseiro; passeia-se nele caprichosamente, exatamente como Sei Shonagon o compôs. E nos maravilhamos com o humor ferino, a sutileza psicológica, o talento narrativo e o refinamento estético dessa distante contemporânea nossa que é a sua autora e que tem entre seus admiradores Jorge Luis Borges, Octavio Paz e Peter Greenaway (autor de uma versão desse livro delicioso para o cinema).
Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

O que é que ele tem (Objetiva, 2016), assim Olivia Byington começa a responder a pergunta que tantas vezes fizeram para ela: o que é que ele tem? “Ele” é seu primogênito, João, que tem síndrome de Apert. Após ler tão lindo relato, eu daria duas respostas à pergunta. Ele tem o azar de nascer numa sociedade que discrimina pessoas pelas características físicas. E ele tem a sorte de nascer numa família de pessoas tão amorosas e esclarecidas que olham para ele como ele é: uma pessoa igualmente amorosa e feliz que tenta lidar com a discriminação sofrida da melhor maneira possível. Em tempos de isolamento social, é importante pensar naqueles que vivem diariamente e a vida inteira a experiência de serem isolados pelos demais.
Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.

Dino Buzzati soube aproveitar o tédio e a solidão de seu trabalho noturno como jornalista do Corriere della Sera para escrever um dos maiores romances da literatura do século XX (não em tamanho, por certo): O deserto dos tártaros (1940), que narra a história de Giovanni Drogo, um jovem oficial do exército, cheio de planos de ascender na carreira, designado para servir no Forte Bastiani, na fronteira do nada com lugar nenhum. O Forte, já quase vazio, vai se esvaziando ainda mais com o passar dos anos, uma vez que os veteranos vão solicitando transferência para outros lugares onde há mais o que fazer do que esperar pela invasão dos tártaros, um povo que habita mais o imaginário do que a probabilidade. Enquanto isso, Giovanni Drogo segue ali, estático, destituído de sonhos, ainda que dominado por uma grande ilusão. Essa alegoria se transformou em filme homônimo em 1976, dirigido por Valerio Zurlini, tendo o inesquecível ator Vittorio Gassman como protagonista. Um belo filme. Mas, como sempre, o livro é melhor.
Ana Boff de Godoy é professora de humanidades da UFCSPA.

Fala-se de Marketa Lazarová (de František Vláčil, 1967) como o maior filme já realizado na Tchecoslováquia (hoje desmembrada em dois) e um dos mais representativos das nouvelles vagues que apareceram a partir da França nos anos 60 em vários países do mundo, dentre os quais o Japão e o Brasil. As nouvelles vagues geralmente tratam de temas contemporâneos e da vida dos jovens; mas Marketa Lazarová faz o contrário: transporta-nos para a Idade Média, a uma região remota da Boêmia. Nela, a jovem prometida ao convento Marketa é raptada por um bandido pagão, o belo e cruel Mikoláš, inimigo do seu pai, sofrendo todo tipo de abusos - psicológicos, físicos e sexuais. Contudo, um laço insuspeitado de amor surge entre carrasco e vítima… Além da narrativa rica e perturbadora sobre a condição feminina em uma sociedade patriarcal, a meio-caminho entre o paganismo e o cristianismo, Marketa Lazarová é um dos mais belos filmes de arte já feitos: cada plano, cada tomada, cada movimento de câmera é pensado como um mundo, ao mesmo tempo arrebatador e terrível e ao som de uma música não menos sublime. Está disponível em streaming no site Petra Belas Artes.
Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

Na minha pele, de Lázaro Ramos (Editora Objetiva, 2017) é um livro que se anuncia, desde o início, como uma não biografia. O autor-ator não quer contar fatos de sua vida para o leitor. Os fatos são apenas o fio condutor da análise que faz sobre o que significa ser e crescer negro no Brasil, um país racista que reescreve acontecimentos e inventa narrativas para negar que a discriminação vivida e sentida diariamente por pessoas negras exista ou, caso exista mesmo, seja tão ruim assim. Sim, isso é dito com ironia. E é com ironia, bom humor e delicadeza que Lázaro Ramos nos faz refletir sobre como é estar na sua pele.
Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.





