Pílulas de Humanidades
Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

O livro de estreia da escritora portuguesa nascida em Angola, Djaimilia Pereira de Almeida, é um romance de memórias de uma vida (aparentemente a sua), mas que não formam uma biografia. Esse cabelo: a tragicomédia de um cabelo que cruza fronteiras (LeYa, 2017) é tramado pelos fios dos cabelos de uma autora que vive entre dois países, duas culturas, duas famílias e muita imaginação. O enredo... bom, não há exatamente um enredo, uma história com começo, meio e fim, mas um enredado de memórias nas palavras enlaçadas com muita poesia, potência, doçura, crítica e também humor. Pra quem gosta de se emaranhar em sons e cadências de palavras novas e de memórias outras (que não são tão outras assim), é uma delícia!
Ana Boff de Godoy é professora de humanidades da UFCSPA.

Óperas também podem ser motivo de escândalo, e a Salomé (1905), de Richard Strauss, é um exemplo entre muitos. Essa ópera é uma adaptação da peça de Oscar Wilde, então recém-falecido e ainda dono de "má reputação" por ser homossexual. O próprio mito bíblico de Salomé - a princesa que excita com uma dança sensual seu padrasto, o rei Herodes, para pedir-lhe a cabeça de São João Batista numa bandeja - é também perturbador. Wilde e Strauss carregam nas tintas da provocação: seguindo as ideias da psicopatologia da época, Salomé aparece ligada aos temas da histeria e da masturbação feminina, entre outros assuntos "espinhosos". A Dança dos Sete Véus e os beijos de Salomé na cabeça decepada de São João contaram para que a ópera fosse censurada na Europa e nos Estados Unidos. E a música moderna, delirante e ousada de Strauss só reforça o caráter desconcertante dessa obra-prima da Belle Époque. Tem várias versões legendadas no YouTube, mas a filmagem de 1975, com a maravilhosa soprano canadense Teresa Stratas, é de arrepiar. Disponível em
.Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

Virginia Woolf é uma escritora maravilhosa que gosta de experimentar diferentes modos de escrita. Sociedade é um conto genial. Um grupo de mulheres decide organizar uma associação para avaliar o trabalho intelectual dos homens. “Por que, se os homens escrevem paspalhices como essas, teriam nossas mães desperdiçado sua juventude trazendo-os ao mundo?” A pergunta feita em 1921 é revolucionária. As mães se dedicavam aos filhos e à casa de modo diferente do que fazem no presente. E então, qual você acha que é a conclusão desta sociedade de mulheres após muitos anos de pesquisa?
Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA

Chico Buarque dispensa apresentações. Cresci ouvindo suas músicas e quando fiz 4 anos ganhei um livro seu: “Chapeuzinho Amarelo”. Tenho comigo até hoje; li muitas vezes pros meus dois filhos e... bem, sei de cor! Seu último livro (para adultos!) é o romance Essa gente (Companhia das Letras, 2019), lançado ano passado, mesmo ano em que Chico recebeu o Prêmio Camões. Misturando o formato de diário e cartas, Chico encarna o personagem-narrador Manuel Duarte, um escritor decadente, na maior dureza, mulherengo, com dificuldade de relacionamento com o filho adolescente. Uma história prosaica, clichê até. Mas, nas mãos de Chico, e pelas lentes de seu personagem, ganha todo um contorno diferente, cenas quentes e sequências surpreendentes.
Ana Boff de Godoy é professora de humanidades da UFCSPA.

O período do imperador Adriano representou um momento alto de cultura cosmopolita e humanista no Império Romano, quando não se acreditava mais nos antigos deuses e o cristianismo ainda não se tinha instalado. Não é por outro motivo que a escritora belga Marguerite Yourcenar escolheu precisamente esse personagem oficial que está nos livros de história para fazer sua autobiografia íntima e imaginária. Em Memórias de Adriano (1951), a partir de uma sólida erudição histórica, ela busca encontrar uma voz própria para esse soberano refinado e meditativo, que relata a seu neto e futuro imperador Marco Aurélio aspectos das suas vidas pública e privada: suas guerras, suas articulações políticas, mas também seus gostos musicais, suas viagens, seu amor pela filosofia e pela poesia, sua paixão pelo jovem e belo efebo Antínoo, por fim seu luto quando o garoto morre subitamente, vindo a ser divinizado pelo imperador num culto que eternizou sua beleza em um número sem fim de estátuas que até hoje povoam os museus da Europa. O romance de Yourcenar foi um enorme sucesso internacional quando foi publicado, em 1951, e se tornou um clássico do século XX tanto para quem gosta de leituras intimistas quanto para quem prefere ficções históricas.
Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.





