Óperas também podem ser motivo de escândalo, e a Salomé (1905), de Richard Strauss, é um exemplo entre muitos. Essa ópera é uma adaptação da peça de Oscar Wilde, então recém-falecido e ainda dono de "má reputação" por ser homossexual. O próprio mito bíblico de Salomé - a princesa que excita com uma dança sensual seu padrasto, o rei Herodes, para pedir-lhe a cabeça de São João Batista numa bandeja - é também perturbador. Wilde e Strauss carregam nas tintas da provocação: seguindo as ideias da psicopatologia da época, Salomé aparece ligada aos temas da histeria e da masturbação feminina, entre outros assuntos "espinhosos". A Dança dos Sete Véus e os beijos de Salomé na cabeça decepada de São João contaram para que a ópera fosse censurada na Europa e nos Estados Unidos. E a música moderna, delirante e ousada de Strauss só reforça o caráter desconcertante dessa obra-prima da Belle Époque. Tem várias versões legendadas no YouTube, mas a filmagem de 1975, com a maravilhosa soprano canadense Teresa Stratas, é de arrepiar. Disponível em

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Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.