
O período do imperador Adriano representou um momento alto de cultura cosmopolita e humanista no Império Romano, quando não se acreditava mais nos antigos deuses e o cristianismo ainda não se tinha instalado. Não é por outro motivo que a escritora belga Marguerite Yourcenar escolheu precisamente esse personagem oficial que está nos livros de história para fazer sua autobiografia íntima e imaginária. Em Memórias de Adriano (1951), a partir de uma sólida erudição histórica, ela busca encontrar uma voz própria para esse soberano refinado e meditativo, que relata a seu neto e futuro imperador Marco Aurélio aspectos das suas vidas pública e privada: suas guerras, suas articulações políticas, mas também seus gostos musicais, suas viagens, seu amor pela filosofia e pela poesia, sua paixão pelo jovem e belo efebo Antínoo, por fim seu luto quando o garoto morre subitamente, vindo a ser divinizado pelo imperador num culto que eternizou sua beleza em um número sem fim de estátuas que até hoje povoam os museus da Europa. O romance de Yourcenar foi um enorme sucesso internacional quando foi publicado, em 1951, e se tornou um clássico do século XX tanto para quem gosta de leituras intimistas quanto para quem prefere ficções históricas.
Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.





