Pílulas de Humanidades
Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

É difícil não gostar de Me chame pelo seu nome, filme de Luca Guadagnino, que foi um dos principais lançamentos de 2017. A história de amor entre o sensível adolescente Elio e o jovem erudito Oliver, num palácio na Itália durante um verão dos anos 80, atrai pela delicadeza da narrativa, pela beleza inacreditável das locações e do elenco e pela reconstrução de época, irônica e sutil. A trilha sonora é também maravilhosa. Tem música de concerto contemporânea, com as lindas Hallelujah Junction, para piano, do compositor americano John Adams. Tem pop de rádio inglês, italiano e francês da década de 80, como a canção que embala a famosa cena da pista de dança, do Psychedelic Furs ("Love My Way"). E tem o maior músico do indie atual, o talentosíssimo Sufjan Stevens, com as inesquecíveis "Mystery of Love'' e "Visions of Gideon". O filme está em streaming no Telecine Play e tem a trilha no Spotify.
Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

Precisamos de novos nomes (2013) é o livro de estreia de NoViolet Bulawayo, escritora zimbabuana de primeira grandeza que, por este livro, recebeu os prêmios Art Seidenbaum do Los Angeles Times, o Hemingway/PEN Award, e ainda foi finalista do Man Booker Prize de 2013. Todos esses prêmios são mais do que merecidos, pois trata-se de um apaixonante romance de formação escrito em primeira pessoa e situado em algum país africano, omitido propositalmente, criando um contraste com o bem bolado “jogo dos países”, brincadeira que tanto agrada à narradora, Darling. O romance conta a história da menina pelos seus próprios olhos, desde sua tenra infância, numa África imprecisa, até o final do Ensino Médio, já na América, precisamente Kalamazoo, em Michigan, EUA. Conta também as histórias de seus amigos e parentes, as memórias, os medos, as decepções, os cheiros, as sensações e as aspirações de uma menina que, afinal, é um pouco cada um de nós.
Ana Boff de Godoy é professora de humanidades da UFCSPA.

Divórcio e adultério não são coisas fáceis de se viver. Que tal descobrir que a sua linda esposa te traiu e te trocou por uma criatura monstruosa, tentacular e assassina? O diretor polonês Andrzej Zulawski criou com essa história meio absurda uma pérola do cinema de terror em Possessão (1981, Alemanha Ocidental/França). Não sei o que é mais angustiante nesse filme, se a feiura da criatura (criada por Carlo Rambaldi, que também fez o monstro de Alien, o oitavo passageiro) ou se o processo desesperador de um divórcio dolorido. Há cenas antológicas para quem gosta de filme de terror: uma histérica discussão de casal com uma faca elétrica de cortar carne; um convulsivo e estranho aborto espontâneo no metrô de Berlim; as tomadas de abertura, em que o drama do casal e a presença fantástica da criatura se situam bem claramente na História, mostrando a feiura do Muro de Berlim dividindo a metrópole… O que há de refrescante nesse filme, meio de arte e meio de terror, são ver o Sam Neill (de Jurassic Park, lembra?) ainda jovenzinho e apreciar a beleza extasiante de Isabelle Adjani em closes memoráveis. É um filme para quem tem nervos de aço, mas vale cada segundo. E está disponível em streaming no site Petra Bellas Artes.
Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

Eu falei, há algumas pílulas, de duas histórias de amor na filosofia do século XX, a segunda é a de Sartre e Simone de Beauvoir. Chata também! Por isso, recomendo a parte não chata da vida amorosa de Simone de Beauvoir, Cartas a Nelson Algren: um amor transatlântico, 1947-1964 (Editora Nova Fronteira, 2000). Se vocês leram a biografia da Simone de Beauvoir que recomendei há algumas semanas, já sabem que ele não foi um cara propriamente bacana no final da relação deles. Mas, as cartas que trocaram são lindas! Para serem lidas na praia numa tarde ensolarada...
Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.

Maryse Condé é uma das grandes escritoras da contemporaneidade, e uma das mais premiadas também. Mas, infelizmente, os romances dessa incrível mulher antilhana ainda são pouco conhecidos por aqui. Um dos raros publicados no Brasil é Eu, Tituba, feiticeira...negra de Salem, que lhe rendeu seu primeiro prêmio: o “Grand Prix littéraire da femme”, em 1986. Nele, Tituba (personagem real e também muito pouco conhecida) narra sua história, desde o seu nascimento nos arredores de Bridgetown, capital de Barbados, até o seu retorno para ilha caribenha, para terminar a sua curta existência. Entre o início e o fim, o meio: passado do outro lado das águas, em Boston e depois na pequena aldeia de Salem, onde a histeria coletiva e a hipocrisia condenaram à morte uma série de mulheres que ficaram conhecidas como as bruxas/as feiticeiras de Salem. Tituba era uma delas. Sua história-ficção é recontada por Condé, que parece mesmo nos enfeitiçar, pois é impossível fechar o livro antes do último ponto final.
Ana Boff de Godoy é professora de humanidades da UFCSPA.





