Pílulas de Humanidades

Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

Toca Raul! Raul não morreu! Raul Seixas é uma lenda. Mas você sabe por quê? Letrista genial, voz inconfundível, vida conturbada, morte prematura. A vida de Raul Seixas daria um filme. E já fizeram alguns sobre ele. Walter Carvalho é o diretor de Raul Seixas, o início, o fim e o meio, documentário disponível na Netflix que está à altura do documentado. Se você não gostou da pílula sobre axé music, talvez goste da dica de agora sobre o maluco beleza. Se eu gosto de Raul Seixas? Muitíssimo! Mas não diria o mesmo sobre axé music... Ah, mas o documentário é muito bom (ambos são!), por isso, a dica! Afinal, se eu começar a recomendar apenas o que é chato, minhas pílulas passarão a ser vetadas, não?

Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.

Vale a pena conhecer o trabalho do filósofo Emanuele Coccia. Discípulo de Giorgio Agamben, está se tornando um nome conhecido entre os ensaístas italianos contemporâneos (e não faltam bons nomes na Itália nessa lavra!). Coccia trabalha na prestigiosa Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, de Paris, e se expressa em francês. Vem ao Brasil regularmente. Talvez seja a natureza tropical e a arte local que atraiam o autor de um ensaio como A vida sensível (Cultura e Barbárie, 2010). O mundo das formas, dos odores, das cores, dos objetos táteis, do que podemos tocar, ver, ouvir - tudo aquilo que algumas correntes da filosofia veem como enganoso, vazio, irreal, é posto por Coccia no centro do seu sistema, que busca compreender o que é essa vida sensível. Como Agamben, Coccia tem como referência principal a filosofia medieval, e, também como Agamben, articula, a partir dessa tradição, questões que se relacionam diretamente com o contemporâneo, como o estatuto da imagem, o significado da moda e a importância do efêmero. Nessa mesma linha, Coccia também escreveu A vida das plantas (Cultura e Barbárie, 2018), em que aplica esse método para valorizar as plantas não como uma forma vida menos desenvolvida, mas como os seres em que aquilo que é a própria vida se manifesta de forma mais veemente, enquanto vida sensível. São textos que se situam entre o tratado, o ensaio, o poema em prosa e a polêmica. Valem a leitura e a surpresa.

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

Axé: canto do povo de um lugar é um documentário disponível na Netflix e que conta, sem romantizar (muito) a história do surgimento da axé music nos anos 1980, na Bahia. A sonoridade ímpar vendeu milhões de cópias de disco (sim, houve uma época, há não muito tempo, em que as pessoas compravam discos, que tinham existência física, arranhavam, quebravam, mas, podiam ser emprestados, levados para festas na casa de amigos...), enriqueceu muita gente, e colocou a Bahia no centro da cena musical por muito tempo. Para um dia como hoje, com muita chuva, trabalho que exige atenção, mas não elaboração, é um documentário sensacional!

Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.

 

Aqui estão os sonhadores (GloboLivros, 2016) é o primeiro romance de Imbolo Mbue, jovem escritora camaronense. E que romance! São mais de 400 páginas cheias de potência, em que Imbolo nos conta a história do casal Jende e Neni Jonga, oriundos de Limbe (Camarões), mas também a história da família Edwards, da high society nova iorquina, para a qual os Jonga irão trabalhar. Jende e Neni são personagens fictícios, mas se fazem símbolos da comunidade africana que migra para os EUA sonhando com uma vida melhor. Apesar das dificuldades por que passam, a história não é nada pesada, ao contrário! Imbolo consegue imprimir muita poesia na sua narrativa, recheada de reflexões sobre a vida e sobre desejos. Uma leitura realmente apaixonante pra quem gosta de uma boa história!

Ana Boff de Godoy é professora de humanidades da UFCSPA.

Vocês já devem ter percebido que eu adoro ler biografias. O ano está chegando ao final, o cansaço a níveis outrora desconhecidos, e a criatividade vai minguando. Então, as próximas pílulas serão relatos biográficos ou autobiográficos dos quais eu gosto muito e que eu ainda não recomendei neste ano... Sim, já estou me preparando para mais um ano de pílulas. Então, vamos lá. Já disse em outra pílula que se eu precisasse escolher o livro para levar para uma ilha deserta, seria, “Assim falou Zaratustra”, de Nietzsche. Para conhecer a vida dele, recomendo a última biografia lançada (sim – e felizmente – estão lançando novas e melhores biografias de pensadores conhecidos). A última se chama Eu sou dinamite de Sue Prideaux (Planeta do Brasil, 2019).

Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.