Pílulas de Humanidades
Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

Sebastião Salgado é um fotógrafo genial. Isso todo mundo sabe. Há milhares de fotografias dele disponíveis na Internet. Procure... O que há de comum a todas elas? Sofrimento. Um sofrimento comum a muitas pessoas, mas pessoas que outras tantas fingem que não existem. As que sofrem estão isoladas. Muitas por estarem longe da dita civilização, outras, porque os ditos civilizados não querem vê-las. Uma pílula diferente? Sim, recomendo fotografias. Quais? Qualquer uma. Já vi centenas de fotografias feitas por ele e todas são incrivelmente lindas! Lindas... perturbadoras... e transformadoras...
Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA e fotógrafa.

Certamente você já ouviu (ou disse) a célebre frase de Sartre: “O inferno são os outros” (mesmo que não soubesse ser dele e mesmo que não a tenha ouvido ou dito com a mesma intenção do filósofo). Pois o escritor (e múltiplo artista) português Valter Hugo Mãe parodiou a frase do existencialista, subvertendo-a em título para o seu pequeno O paraíso são os outros (Biblioteca Azul, 2018 – 1ª edição de 2014). Digo pequeno porque é pequeninho mesmo, pouco mais de 50 páginas, sendo muitas delas desenhadas também pelo autor. É um livro narrado por uma menina, assim como “A desumanização”, seu livro anterior, que inspirou a escrita deste. Por isso, tem uma linguagem infantil. Ele até pode ser um livro para crianças, mas é também um livro para adultos, pois a compreensão sobre o tema pode se dar em vários níveis. E qual o tema? A relação com os outros, o que nos torna humanos, o amor... é um livro que deixo sempre rodando pela casa. Volta e meia alguém passa, pega, lê, sente, pensa... Cada casa deveria ter o seu.
Ana Boff de Godoy é professora de humanidades da UFCSPA.

Quando o vocalista do Talking Heads, David Byrne, se uniu ao grande nome da música vanguardista, Brian Eno, o resultado causou um pequeno furor no mundo da música, com o disco My Life in the Bush of Ghosts. O álbum é de 1981 e não sai da vanguarda há quarenta anos. A sonoridade é única e causou controvérsias com todo mundo, de ouvintes a gravadoras e a líderes religiosos. Mistura de sonoridades africanas e árabes com música eletrônica e rock experimental, consolidou ainda o uso do sample (trechos de músicas ou sons já existentes) como elemento da composição, como hoje faz o hip-hop e o tecno. Byrne e Eno colaram sobre o tecido sonoro que criaram as vozes mais variadas, de locutores de rádio a discursos políticos - e até um exorcismo. Inventaram, segundo o próprio Brian Eno, uma "visão psicodélica da África" que não envelheceu em nada.
Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

Ousadas: mulheres que só fazem o que querem, volumes 1 e 2, de Penélope Bagieu (Editora Nemo, 2020), são histórias em quadrinhos que contam, em cada volume, a história de 15 mulheres que, como diz o subtítulo, fizeram o que quiseram, e, com isso, fizeram história das mais variadas formas, nadando e desenhando roupas de banho, sendo imperatriz, ou a primeira mulher publicamente transexual. O texto é muito bem humorado e os desenhos primorosos. Recomendo a leitura para as mulheres ávidas para fazer o que desejam e para os homens compreenderem as mulheres voluntariosas.
Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.

O livro de estreia de Carson McCullers (1917-1967) deu o que falar em 1940, quando a estadunidense tinha somente 23 anos. Apesar da pouca idade e de ser sua primeira obra, O coração é um caçador solitário apresenta uma narrativa madura, intensa, incrivelmente bem tramada, riquíssima em cenários e personagens que, por sua vez, mostram uma profundidade psicológica desconcertante. Não, McCullers não é direta; como grande escritora, dá espaço para a imaginação do leitor trabalhar. Mas está tudo ali, pra gente espiar, refletir, se identificar, criticar ou gozar junto: todo tipo de amor, de gente, de preconceito, de sensação, de problema, de solução (ou quase). Um livro difícil de resumir e impossível de esquecer.
Ana Boff de Godoy é professora de humanidades da UFCSPA.





