Uma dama aristocrática move-se com discrição junto à imperatriz Teishi, no Japão, entre os séculos X e XI. E escreve ao sabor do acaso, sobre tudo e sobre nada, para si mesma. Um dia, por acidente, essas folhas vazam… E se tornam um dos maiores clássicos da literatura japonesa. Essa seria uma das origens possíveis do Livro do Travesseiro (2008, editora Escritos), da cortesã e escritora Sei Shonagon (c.966-1017). O livro se compõe das observações soltas dessa observadora arguta do mundo, da natureza e da sociedade de sua época. Desfilam em suas páginas fofocas, intrigas, maledicências, poemas, narrativas, regras de etiqueta, preferências pessoais (por flores, paisagens, cortes de quimonos) e as famosas listas, tocantes, cômicas e surpreendentes (“Coisas que constrangem”, “Coisas que aparentam pobreza”, “Coisas que não combinam”). Não se lê o Livro do Travesseiro; passeia-se nele caprichosamente, exatamente como Sei Shonagon o compôs. E nos maravilhamos com o humor ferino, a sutileza psicológica, o talento narrativo e o refinamento estético dessa distante contemporânea nossa que é a sua autora e que tem entre seus admiradores Jorge Luis Borges, Octavio Paz e Peter Greenaway (autor de uma versão desse livro delicioso para o cinema).

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.