Michel Houellebecq é um dos autores franceses contemporâneos mais lidos e ao mesmo tempo um dos menos simpáticos, por seu temperamento e suas opiniões por vezes voluntariamente intragáveis. Em uma passagem por Porto Alegre, o enfant terrible causou furor e constrangimentos… (Mas essa é outra história!). Nada disso impediu Serotonina de ser o lançamento literário de 2019. Florent é um homem deprimido, que recorre a medicações para continuar vivendo - elas o deixam artificialmente menos infeliz e sexualmente impotente. Enquanto isso, ao seu redor, a velha França e a Europa desmoronam, sob o impacto do liberalismo e da globalização. Com humor negro e com uma ironia amarga, o livro parece apreender o clima de insatisfação prevalente em alguns meios sociais na nossa época, que redundou também na revolta dos coletes amarelos em Paris. Da mesma forma, evoca temas quentes do nosso noticiário: a ebulição do populismo conservador, a influência da neuro-psiquiatria, a masculinidade em crise, a liberação da mulher pequeno burguesa, a segregação urbana e social, o cosmopolitismo e o enraizamento nacionalista…  

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.