
Fela Kuti era um ser humano superlativo. Primo do Nobel de Literatura Wole Soyinka, foi um dos músicos africanos mais famosos, militou contra a ditadura da Nigéria, fundou uma comuna dissidente (a República de Kalakuta), perdeu a mãe nos combates contra o governo, casou com 27 mulheres de uma vez, inventou o Afrobeat (mistura de funk, soul, jazz e música iorubá), e, quando morreu em decorrência da AIDS em 1997, um milhão de nigerianos assistiram ao funeral… É impossível indicar só um álbum de Fela Kuti, mas Zombie (1978) é um marco, porque seu conteúdo político foi o estopim das perseguições do governo contra a República de Kalakuta. Era total sua recusa a fazer músicas de 3 minutos para o rádio. No momento em que o pop produzido nos EUA tem sido veículo a uma bem-vinda afirmação das culturas negras, a arte complexa de músicos africanos, como Fela Kuti, mostra que outras formas de fazê-lo também podem ser interessantes, a partir de uma estética desafiadora e inventiva, longe dos padrões da cultura de massa. (A cena de rock na Zâmbia e o jazz de músicos etíopes como Mulatu Astatke também são imperdíveis!)
Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.





