
Nos anos 70 e 80, Nova York não apenas era o umbigo do mundo; era também uma das suas metrópoles mais decadentes: gangues, drogas, bancarrota, pane dos serviços públicos… Uma distopia - que acabaria na gentrificação dos anos 90 e 2000. E, no entanto, foram anos de ouro na vida cultural da cidade. Stop making sense (1984), do Talking Heads, é a cara dessa época. Enquanto filme de rock, é próximo à perfeição, como disse na New Yorker a importantíssima crítica de cinema Pauline Kael. E mostra o espírito de Manhattan naqueles anos, misturando disco e papo cabeça, punk rock e multiculturalismo, ironia pós-moderna, arte contemporânea e performance. O show começa por David Byrne sozinho cantando o hit "Psycho Killer", com um toca-fitas e os bastidores à mostra. A cada música, um membro da banda aparece, e operários trazem uma parte do cenário ou um elemento da iluminação. Ao fim, com o palco cheio, David Byrne entra robótico, vestindo um terno cinza com ombreiras gigantes, ícone dos anos 80. Um show in progress, como se dizia naqueles tempos... E indício de que uma dose de decadência pode fazer muito bem às classes criativas de uma cidade. O filme-show está completo no YouTube:
Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.





