O especialista da Cambridge Health Alliance e Harvard School of Medicine foi palestrante no VI Seminário de Internacionalização da UFCSPA

O cenário da saúde pública no Brasil é alvo de debates internacionais intensos desde sua criação, e o VI Seminário de Internacionalização da UFCSPA proporcionou um olhar crítico e propositivo sobre o tema, na última terça-feira, 17/10. O Dr. Robert Janett, renomado especialista da Cambridge Health Alliance e Harvard School of Medicine, provocou reflexões ao defender a necessidade de um novo modelo de pagamento nos sistemas de saúde do país. Sua apresentação “The movement toward value-based payment in healthcare: Implications for the health systems in Brazil” foi conduzida no Teatro Moacyr Scliar, com mediação do Dr. Airton Tetelbom Stein, que destacou na introdução de Robert ao público a sua visão social bem desenvolvida em sua carreira. 

O centro da questão está na complexidade e nos desafios estruturais que permeiam o Sistema Único de Saúde (SUS). A desorganização apontada por muitos não recai sobre os ombros dos profissionais que dedicam suas vidas a esse sistema, mas sobre a sua fundamentação. O modelo atual, baseado em pagamentos por serviço, alimenta um ciclo vicioso de excessivos procedimentos e exames, muitas vezes desnecessários para diagnósticos simples. O resultado é um SUS que, embora admirável em sua concepção, muitas vezes se mostra insuficiente para atender as demandas de uma população cada vez mais complexa e diversificada. 

Robert Janett exibe dados relativos a 2016: naquele ano, mais de 200 mil brasileiros perderam suas vidas devido à baixa qualidade de cuidados ou à falta de acesso a serviços básicos. Um dos problemas fundamentais é a visão fragmentada do sistema de saúde. Os hospitais não devem ser ilhas isoladas, mas é comum que operem desconectados de outros pontos de atenção à saúde, sem uma comunicação efetiva. Essa falha na integração não apenas reduz a eficiência dos serviços, mas também limita a qualidade da atenção prestada. 

Para superar esses obstáculos, Robert traz uma proposta: a implementação de redes de atenção à saúde. Estas redes se apresentam como um sistema integrado e contínuo, capaz de atender tanto às necessidades agudas quanto crônicas da população. O grande desafio, no entanto, está na estruturação de comunicação e atuação mais eficientes entre atenção básica, especialistas e hospitais. 

Outro ponto crítico é a resistência às mudanças. Um modelo de pagamento baseado em taxas por serviço no setor privado tem gerado uma cultura de excessos, desperdícios e fragmentação nos serviços de saúde. A competição, em vez da colaboração, tornou-se comum nas relações entre fornecedores, o que impulsiona conflitos entre prestadores e planos de saúde. 

No entanto, a atenção primária robusta na saúde suplementar já demonstrou resultados promissores, reduzindo significativamente as hospitalizações e visitas às emergências. Além disso, a expansão da discussão sobre o pagamento baseado em valor (VBC) e a liderança de alguns hospitais e grupos especializados apontam para um futuro mais integrado e eficaz.