Conferência abordou possibilidades de inovação para economia e desenvolvimento sustentável das cidades

Na tarde da última terça-feira, 17/10, durante o 3º Congresso UFCSPA, a mestranda do Programa de Pós-graduação em Genética e Biologia Molecular (PPGBM) da UFRGS, Marina Ziliotto, colocou em pauta discussões importantes sobre as relações entre ecossistemas e saúde. Com uma trajetória acadêmica notável, que inclui a publicação de artigo na prestigiada revista Science, a jovem cientista apresentou sua pesquisa na conferência "Ecologia e Saúde: conexões e exemplos do Pampa à Cidade", no Salão Nobre, com a mediação da professora Dra. Ana Beatriz Gorini da Veiga.

Marina iniciou com uma contextualização sobre os serviços ecossistêmicos, que são benefícios naturais prestados pelos ecossistemas, e sua classificação em quatro categorias: provisão, regulação, culturais e de suporte. Esses serviços, que englobam desde a oferta de alimentos e água doce até a absorção de CO2 e o controle de pragas, são essenciais para a coexistência harmoniosa entre seres humanos e meio ambiente. Na sequência, Marina alertou para os desafios provocados por fatores antropogênicos, as interferências humanas, como desmatamento desenfreado e urbanização não planejada. Essas alterações desencadeiam desequilíbrios ecológicos e propiciam a proliferação de espécies zoonóticas, que transmitem doenças entre animais e humanos. 

Ao introduzir sua pesquisa, baseada na coleta de solo em oito pontos distintos de Porto Alegre, a pesquisadora expôs uma realidade preocupante. O número de larvas patogênicas permaneceu inalterado ao longo das estações. A presença constante de patogênicos indica a circulação de animais e pessoas infectadas nesses locais, aponta para a insuficiência do sistema de saneamento básico e ressalta a necessidade de recuperação da biodiversidade. Em um ecossistema mais biodiverso, observamos maior resiliência, que mantém os patógenos em um relativo equilíbrio. Por outro lado, uma menor biodiversidade resulta em uma diminuição de predadores naturais, alterações nas teias alimentares e nichos ecológicos, o que favorece animais transmissores de doenças a humanos. 

O principal ponto trazido foi a urgência da preservação do bioma Pampa, uma paisagem singular predominante no Rio Grande do Sul. Entretanto, fatores como plantações florestais, cultivo de commodities e atividades de mineração ameaçam a integridade desse ecossistema, que carece, também, de legislações específicas. Marina também sugere que mais da biodiversidade do pampa seja inserida na economia gaúcha, pois o bioma, entre outras características, possui uma vocação natural para a pecuária sustentável. É necessário fomentar inovações na indústria e novas possibilidades de pesquisa para ciência e tecnologia que conversem com conservação biológica e manutenção dos serviços ecossistêmicos que considerem as repercussões na agricultura e na saúde pública. Ela propõe, ainda, um desenvolvimento sustentável que invista mais em ecoturismo, diálogo e educação das populações locais. 

Na metade final da sua apresentação, a cientista convidou a plateia a repensar a atuação das cidades na construção de um futuro diferente possível. Em uma Porto Alegre que mantém apenas cerca de 20% de sua cobertura verde original, as áreas verdes urbanas desempenham um papel central na interação das pessoas com a cidade. A orla do Guaíba, por exemplo, com projeto urbanístico desenvolvido e entregue à população nos últimos anos por uma iniciativa público-privada, apresenta pouca arborização e muito concreto, o que gera altas temperaturas e a torna pouco utilizada pelas pessoas em dias muito quentes. Por outro lado, a Fazenda do Arado, uma região alagadiça, desempenha um papel ecossistêmico de retenção e escoamento da água. No entanto, há planos para a construção de um bairro planejado, o que pode representar uma ameaça ao equilíbrio ecológico. 

“Porto Alegre está preparada para os próximos eventos climáticos extremos?”, Marina questiona. Está em evidência a demanda por uma mudança drástica na concepção de desenvolvimento urbano, especialmente diante do espectro da especulação imobiliária. Essa mudança requer uma abordagem multidisciplinar, que envolve também engenharia e arquitetura, e é fundamental para conceber cidades mais sustentáveis e resilientes. “O futuro da ciência é cada vez mais conectar áreas e ampliar possibilidades e atuações”, sublinha a cientista. 

Marina encerrou sua apresentação fazendo um importante recorte e lembrete social para direcionar reflexões a partir do encontro: "Migrar para áreas rurais e mais preservadas é para poucos. A discussão é como transformar a vida nas cidades mais sustentável".