Novas possibilidades de atuação foram apresentadas por pesquisadoras com trajetórias de inovação destacadas



Na última quarta-feira, 18/10, o Auditório Cyrne Lima recebeu docentes, cientistas e pós-graduandos para acompanhar a mesa redonda “Perspectivas de inserção de mestres e doutores em um mercado de trabalho globalizado”, com as convidadas Dra. Bibiana Matte, co-fundadora da Cellva; Dra. Marlise dos Santos, fundadora da MyDIGICARE Cuidado Farmacêutico; e Dra. Mellanie Dutra, pesquisadora da Unisinos. O evento integrou a programação do I Seminário da Pós-Graduação e teve mediação da professora Dra. Elizandra Braganhol. 

Bibiana Matte é empreendedora na área de biotecnologia com foco em cultivo de células, biologia molecular, engenharia de tecidos e pioneira no desenvolvimento da tecnologia brasileira de carne cultivada. Ela trouxe sua história de empreendedora com inovação em ciência aplicada. Antes de co-fundar a Cellva em 2022, a pesquisadora lançou a Núcleo Vitro em 2019, que realiza estudos de biologia celular e molecular cruelty free (livres de exploração e crueldade animal) de segurança e eficácia para produtos para saúde. A empresa é pioneira no modelo de pele artificial em cultivo celular, engenharia de tecidos e modelos biomiméticos. O uso da bioimpressão permite automatizar, acelerar e escalar processo de produção de pele. 

A cientista compartilha que lançar uma empresa lhe trouxe desafios constantes, contornados com base na sua experiência científica e questionadora. O que ajudou a transicionar sua pesquisa foi buscar por soluções com aplicação no mercado e gostar de ouvir atentamente às demandas e correlacionar com diferentes conhecimentos. Bibiana deixa uma importante pergunta norteadora aos pesquisadores: “Onde mais podemos aplicar nosso conhecimento?”. A Cellva foi lançada em 2022 para ser a primeira empresa no Brasil voltada para o desenvolvimento e produção de ingredientes de fonte animal via cultivo celular, sem desmatamento e sem abate. Hoje, o empreendimento se destaca num cenário de demanda por alternativas sustentáveis de produção e cultivo. 

Bibiana ressalta a importância de impulsionadores ainda nos seus primeiros movimentos de criação da Núcleo Vitro. A busca por soluções possíveis através de simples contatos com outros profissionais no início das pesquisas possibilitou o aluguel de um laboratório, que resolveu o problema de compartilhar equipamentos para cultivos de células, comum entre cientistas e que pode comprometer processos e resultados. Mais adiante, o programa Doutor Empreendedor da FAPERGS deu aporte ao período de maiores desafios. “Esse tipo de estímulo é muito importante”, comenta. 

Marlise dos Santos, fundadora da MyDIGICARE Cuidado Farmacêutico foi ao encontro do que trouxe Bibiana: “A aproximação com empresas e outros profissionais é muito importante pois pode ampliar oportunidades de desenvolvimento.” 

A MyDIGICARE é uma plataforma de telefarmácia. A iniciativa proporciona a extensão do atendimento médico e hospitalar relacionado à farmacoterapia e à saúde integral de forma humanizada, remota e personalizada, com agilidade e disponibilidade. Amplia, assim, a segurança do paciente e a qualidade do serviço prestado em todo o ecossistema de saúde. A MyDIGICARE foi fundada em 2022, está ativa em nove estados brasileiros, e também lança a proposta de telefarmácia em ambiente espacial. 

A cientista falou sobre dispor o conhecimento da pesquisa científica à serviço do empreendedorismo e do mercado. Na sua visão, para ser pesquisador e para empreender são necessários objetivos, metas, desafios, desenvolver resiliência, a identificação de oportunidades e a busca por realização. Marlise destaca como a competência mais importante a resiliência: “Temos que aprender que, associado a essa resiliência, temos que encontrar na crise uma oportunidade”. 

Foi como Mellanie Dutra encarou o período da pandemia de Covid-19 e o grande desafio da desinformação que emergiu naquele contexto. Mellanie é neurocientista e conta que no mestrado pesquisava sobre autismo quando se deparou com uma pergunta que foi para ela um primeiro marco de mudança de perspectiva: “Do que é feita nossa realidade?”. 

Por conta da sua habilidade para se comunicar, foi convidada por uma professora para palestrar na Semana Nacional do Cérebro (SNC) da UFRGS e encontrou no convite uma oportunidade de compartilhar seus novos questionamentos e reflexões. Para a palestra, estudou comunicação e storytelling, que garantiram o sucesso da sua apresentação na ocasião e nas demais 54 vezes que a levou ao público em edições de 30 diferentes eventos, alguns internacionais. Depois do êxito da primeira palestra, a criação de novas apresentações sobre outros temas foi um curso natural na sua carreira, sempre sobre a base do storytelling e da sua dedicação para informar com qualidade. “Se você quer chegar num público mais leigo, tem que estudar mais comunicação!”, ela reforça. 

Para a pesquisadora da Unisinos, a segunda mudança de paradigma foi entender que ninguém faz nada sozinho, entendeu a força de uma rede. Em 2020, quando os índices de transmissão do novo coronavírus tomava proporções de pandemia global, ela passou a integrar a Rede Análise Covid-19 - que atualmente se chama Rede Análise. 

O grupo de 84 pesquisadores voluntários de várias áreas do conhecimento “transformava informação em algo palatável para o cidadão” e foi uma das primeiras redes que recebeu apoio do Instituto Serrapilheira. A Rede Análise continua ativa com comprometimento com a informação científica acessível. “É importante que as pessoas vivam aquelas informações e não só as recebam passivamente”, frisa a neurocientista. 

Mellanie também acentua a importância de furar bolhas sociais: “É necessário ir e conversar com as pessoas das comunidades mais carentes de recursos. Nem todo mundo está nas redes sociais e essas pessoas que estão fora delas são, muitas vezes, as que mais precisam de informação”. No seu ponto de vista e atuação, ela vê no jornalismo científico e nas atividades de extensão nas universidades dois grandes braços aliados na missão da comunicação científica acessível e de qualidade. Mellanie encerra com uma fala que não deve ser entendida como um deslumbre, mas como um futuro possível com base em trabalho coletivo: “No dia que a ciência voltar a ser rotina na vida das pessoas, ser conhecimento e entretenimento, a desinformação perdeu.”