Professora da UnB, Helena Moura, destacou impactos emocionais dos eventos extremos sobre a população

Nesta quinta-feira, 12 de junho, o Teatro Moacyr Scliar sediou mais uma conferência no 4º Congresso UFCSPA. A professora Helena Ferreira Moura, da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB), proferiu a palestra "Mudanças Climáticas e Saúde Mental", sob mediação da professora Joana Narvaes. A atividade integrou a programação do congresso, abordando a relação entre as alterações ambientais e o bem-estar psicológico, com um olhar especial às enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024.

A professora iniciou sua fala destacando como o sofrimento causado por eventos climáticos extremos está enraizado na cultura brasileira, seja nas letras de Luiz Gonzaga ou nas páginas de “Vidas Secas”. “Ao longo da nossa história, a seca, a fome e o deslocamento forçado deixaram marcas não só físicas, mas emocionais”, pontuou Helena, lembrando ainda a representação desse sofrimento em obras como “Os Retirantes”, de Portinari. Ela ressaltou que, apesar de muitas vezes associarmos essas tragédias ao passado ou a regiões distantes, hoje os eventos extremos se intensificam e atingem novas populações, tornando impossível ignorar seus efeitos sobre a saúde mental.

Segundo a palestrante, os impactos das mudanças climáticas sobre o equilíbrio psíquico podem ser diretos, como o luto e o estresse pós-traumático vividos por quem perde tudo em enchentes ou incêndios, e indiretos, afetando até mesmo quem não foi atingido fisicamente, mas sente ansiedade diante da possibilidade de novos desastres. “O simples aumento da temperatura já pode desencadear sintomas como irritabilidade, fadiga e até quadros de agressividade”, explicou Helena, citando estudos que relacionam ondas de calor à piora de transtornos psiquiátricos e ao aumento da mortalidade entre pessoas já vulneráveis.

A professora chamou atenção para o fato de que os efeitos das catástrofes ambientais não são distribuídos de maneira igualitária. “Países e populações que menos contribuem para a crise climática são justamente os que mais sofrem com ela”, afirmou, destacando a necessidade de políticas públicas que considerem as desigualdades sociais, de gênero, idade e saúde prévia. Crianças, idosos, mulheres e pessoas com transtornos mentais prévios tendem a ser mais impactados e a enfrentar maiores dificuldades de recuperação após eventos extremos.

Helena também abordou o conceito de ecoansiedade, um fenômeno cada vez mais presente entre jovens e comunidades que dependem diretamente do meio ambiente. “Não se trata de um medo irracional, mas de uma reação legítima diante de ameaças reais ao futuro”, explicou, citando pesquisas que apontam alta prevalência de ansiedade relacionada ao clima em países como o Brasil. Para comunidades indígenas e ribeirinhas, a degradação ambiental representa não só perda material, mas também um abalo profundo de identidade e pertencimento.

A palestrante destacou ainda os desafios enfrentados por profissionais de saúde mental em situações de catástrofe, como a sobrecarga emocional, a necessidade de adaptação rápida e a falta de protocolos específicos para lidar com o contexto do desastre. “Precisamos aprender com experiências internacionais e investir em treinamento, estrutura e pesquisa que levem em conta as particularidades do nosso território e das nossas populações”, defendeu, lembrando que a integração entre áreas como sociologia, antropologia e saúde é fundamental para respostas mais eficazes.

Por fim, Helena reforçou a importância do engajamento dos profissionais da saúde como defensores de políticas públicas que considerem o impacto das mudanças climáticas sobre o bem-estar coletivo. “A saúde mental precisa ser incluída no cálculo do custo-benefício de qualquer decisão que envolva o meio ambiente. Não se trata apenas de reconstruir cidades, mas de garantir que as pessoas possam reconstruir suas vidas”, concluiu.