Núcleo de Estudos e Respostas aos Impactos dos Desastres na Saúde visa fortalecer ações de prevenção, pesquisa e formação profissional diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas e vulnerabilidades sociais

A Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) oficializou nesta semana a criação do Núcleo de Estudos e Respostas aos Impactos dos Desastres na Saúde (NERIDS). A iniciativa institucionaliza e amplia o trabalho desenvolvido pela comunidade acadêmica a partir das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, estruturando agora uma atuação permanente e integrada na área.
O NERIDS nasce com o objetivo de qualificar a prevenção, o preparo e a formação de profissionais para atuar frente a cenários cada vez mais complexos de emergências e desastres, que afetam diretamente a saúde das populações e exigem respostas articuladas das instituições públicas de ensino e pesquisa em saúde.
“Não podemos nos limitar a atuar apenas nas respostas emergenciais. Precisamos avançar na formação de profissionais e também no preparo adequado para eventos que, infelizmente, já não são mais imprevisíveis”, afirmou a reitora da UFCSPA, Jenifer Saffi, durante a cerimônia de lançamento.
A estruturação do núcleo envolveu, em um primeiro momento, servidores, estudantes e voluntários que atuaram na resposta institucional às enchentes de 2024. A composição atual do NERIDS foi formalizada por meio de portaria institucional, que define oficialmente seus integrantes.

Desastres: compreender para melhor agir
Durante o evento de lançamento, o egresso do curso de Gestão em Saúde da UFCSPA, Abner Freitas, ministrou uma aula aberta aprofundando aspectos conceituais e históricos relacionados aos desastres e suas repercussões na saúde. Abner também integra o NERIDS como membro externo, contribuindo com sua trajetória de pesquisa na área.
“Talvez a gente ainda não meça o impacto daquilo que estamos começando hoje. O início é uma revolução”, destacou o pesquisador na abertura de sua fala.
Em sua apresentação, ele abordou as origens históricas dos conceitos de desastre e catástrofe, chamando atenção para o uso muitas vezes impreciso dos termos no debate público. O termo desastre, explicou, tem raízes na palavra italiana desastro, do século XIII, associada a influências astrológicas desfavoráveis. Já catástrofe vem da teoria dramática da Grécia Antiga, originalmente utilizado para designar o desfecho de tragédias e comédias.
“Não existe tragédia climática. Tragédia é um gênero do teatro. Quando usamos esses termos de forma equivocada, perdemos precisão e clareza na análise dos eventos”, afirmou.
Abner também apresentou o modelo conceitual adotado pelas Nações Unidas, que compreende os desastres como o resultado da interação entre três fatores: exposição, vulnerabilidade e capacidade de resposta. Com base nesse modelo, ressaltou a importância de investir no fortalecimento institucional e comunitário, especialmente na ampliação da capacidade de resposta como estratégia concreta de redução de danos.
O pesquisador ainda provocou uma reflexão sobre o comportamento social diante dos diferentes tipos de desastre, comparando o forte engajamento da sociedade durante as enchentes de 2024 — quando não houve vítimas fatais — com a menor mobilização registrada no incêndio da pousada Garoa, ocorrido na mesma época em Porto Alegre, e que resultou em dez mortes. “Por que nos engajamos mais em um caso do que em outro? Existe um julgamento social sobre o tipo de desastre que mobiliza ou não a sociedade”, pontuou.

O NERIDS passa a desenvolver suas atividades com foco na pesquisa aplicada, extensão universitária, formação acadêmica e produção de conhecimento interdisciplinar, fortalecendo o papel da UFCSPA na qualificação da saúde pública diante das emergências e desastres contemporâneos.





