Pesquisadores da UFRGS apresentaram seus pontos de vista sobre a relação do espaço urbano com a natureza

O segundo dia do 4º Congresso UFCSPA, 10 de junho, foi marcado por discussões sobre o futuro dos centros urbanos com a mesa-redonda "Cidades Sustentáveis e Saúde". Realizado no Teatro Moacyr Scliar, o evento reuniu especialistas para explorar a relação entre o desenvolvimento das cidades e o bem-estar da população, com a mediação da professora Luciana Boose Pinheiro. O debate foi protagonizado pelos pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Heleniza Campos, da Faculdade de Arquitetura, e Rualdo Menegat, do Instituto de Geociências.

As cidades em relação com a natureza

Ao abordar a temática das cidades sustentáveis, o professor Rualdo Menegat explicou que sua trajetória se entrelaça com o tema desde 1998, quando coordenou o Atlas Ambiental de Porto Alegre. ”Esse trabalho envolveu 134 colegas, levou a um doutorado em Ecologia, numa época em que não existia algo assim como ‘Ecologia Urbana’, olhar a cidade como um organismo”, rememorou.

Para ilustrar a relação entre o homem e o ambiente, Menegat estabeleceu um paralelo instigante entre a "cidade no lugar" e a "cidade fora do lugar". Como exemplo da primeira, citou a milenar Machu Picchu, construída em um local elevado e rochoso, onde o "cruzamento de falhas geológicas" permitia a fixação da estrutura e o acesso à água.

Os incas, apontou o docente, "tinham clara noção do perigo que é viver nas montanhas andinas", e souberam "domesticar as encostas com terraços agrícolas”, revelando uma sabedoria ancestral. Em contrapartida, as cidades modernas são as "cidades fora do lugar", em descompasso com o ambiente natural. Neste sentido, deu como exemplo as inundações de maio de 2024 no Rio Grande do Sul. "Se nós não sabemos como a natureza interage conosco, como as nossas cidades não estão preparadas para essa dinâmica, as consequências podem ser muito severas”, alertou.

O professor então aprofundou o conceito de sustentabilidade, que, em seu uso proliferado, "já não sabemos exatamente o que quer dizer". Recorrendo à etimologia latina de sustinere, ele revelou um leque de significados que vai de "suportar por baixo, também suspender por cima, reter, fazer parar" a "defender, proteger, garantir, manter, conservar, alimentar, cuidar, ajudar e consolar. E, por fim, é resistir, apoiar." E questionou: "Que palavra fantástica é essa? Como é que nós ficamos muito tempo sem olhar para essa palavra e ver o quão importante é ser sustentável?"

Para ele, sustentabilidade também significa "tornar obsoleto o que nós queremos mudar", abandonando velhos paradigmas, como por exemplo, o uso de veículos movidos a combustíveis fósseis. Rualdo concluiu que a sustentabilidade é uma "visão de mundo que busca uma sociedade em rede solidária, simbiótica, onde todos estamos integrados como seres humanos”.

Após a intervenção do docente, a pesquisadora Heleniza Campos, arquiteta urbanista da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, também apresentou seu ponto de vista. Pernambucana de origem, ela trouxe consigo uma trajetória que a levou de Recife ao Rio de Janeiro e, finalmente, ao Rio Grande do Sul. Professora do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional, Heleniza revelou que seu doutorado em geografia já a mergulhava "na perspectiva do espaço urbano, da organização e dos conflitos que existem dentro do espaço urbano." Sua experiência posterior na Universidade de Santa Cruz do Sul, por fim, ampliou seu olhar para a dimensão regional.

A arquiteta percebeu a interconexão das cidades como uma "rede que se espraia pelo planeta”, pontuando a emergência de megacidades como Nova Iorque e Tóquio, e o impacto direto do meio urbano sobre os recursos naturais. Heleniza aprofundou a discussão sobre a forma como a sociedade ocupa o espaço, especialmente no Rio Grande do Sul, refletindo uma visão da natureza meramente como recurso, algo intensificado a partir da Revolução Industrial.

Ela salientou que essa ocupação, muitas vezes inadequada, não se restringe apenas a questões de renda, mas também à necessidade de acesso a serviços e recursos. A professora lançou uma questão sobre justiça ambiental, na medida em que a população de baixa renda acaba empurrada para áreas de risco, enquanto a de média e alta renda, impulsionada pelo mercado imobiliário, ocupa locais inadequados por "agrado", mesmo que isso exija intervenções como a elevação do solo.

A pesquisadora questionou a forma como os paradigmas de "ser feliz" e "bem-sucedido" são construídos, muitas vezes atrelados ao consumo e à inserção em um espaço urbano que ignora seus limites. Heleniza não poupou o diagnóstico sobre as consequências dessa relação distorcida, exemplificando com as inundações de maio de 2024. Para ela, esses eventos catastróficos são um marco da mudança climática, um processo lento, mas "agravado e acentuado de forma absurda pela ação humana".

“Não precisamos esperar eventos catastróficos como do ano passado para entender que esse processo está ocorrendo nesse exato momento e vai continuar ocorrendo daqui para diante. E que não há um retorno", alertou. Ela notou que, embora muitos não tenham tido suas casas atingidas diretamente pelas águas, as relações de diversas pessoas com a cidade de Porto Alegre foram afetadas. "O que aconteceu no ano passado para cá? O que foi feito em termos de políticas públicas para reverter essa situação?", questionou.