Mesa-redonda realizada no Salão Nobre envolveu pesquisadores da UFCSPA, UFRGS e UFPel

Na tarde desta quarta-feira, 12 de junho, o Salão Nobre da UFCSPA sediou a mesa-redonda "Corpos em Movimento: Atividade Física e Esporte no Contexto das Mudanças Climáticas". Sob a mediação do professor Alberto Reinaldo Reppold Filho (UFCSPA), o evento contou com a contribuição acadêmica dos pesquisadores Gabriela Tomedi Leites (UFCSPA), Alcides Vieira Costa (UFRGS) e Anelise Reis Gaya (UFPel e PPGCMH/UFRGS).

Em sua fala, a professora Anelise Gaya abordou os efeitos das mudanças climáticas nos níveis de atividade física e na saúde de crianças e adolescentes. “No Brasil, 40 milhões de crianças estão expostas a riscos climáticos", alertou. A docente detalhou como esses riscos se manifestam em diversas frentes: temperaturas extremas, queimadas, poluição do ar, enchentes e até a mudança de vetores de doenças já conhecidas.

"As crianças ainda são vulneráveis, mais vulneráveis, se eu pudesse dizer, em relação aos adultos", pontuou, destacando que essa vulnerabilidade se acentua em contextos socioeconômicos desfavoráveis ou quando já há algum comprometimento de saúde. A especialista justificou a maior vulnerabilidade infantil por sua "exposição maior ao ar, aos alimentos e à água por unidade de peso corporal" e seus "sistemas de desintoxicação imaturos", o que impede uma adaptação biológica eficaz e prolonga os efeitos prejudiciais ao longo da vida.

“Será que, considerando todas essas consequências dessas mudanças climáticas, em meio disso tudo precisamos ainda nos preocuparmos com as atividades físicas das crianças?", questionou Anelise. A resposta é um categórico "sim". Ela apresentou um modelo conceitual que explora a relação bidirecional entre atividade física e mudanças climáticas. “O calor extremo e desastres naturais, como as enchentes de 2024 que transformaram o Rio Grande do Sul em um caso internacionalmente estudado, têm sido associados a uma drástica redução da atividade física de lazer e de deslocamento, criando um ciclo vicioso de isolamento e de destreinamento físico", alertou a professora.

Anelise reforçou que o exercício regular é essencial não apenas para a saúde, mas para a mitigação e proteção ao risco aumentado que as mudanças climáticas representam para a saúde. “Crianças não são adultos pequenos, demandando abordagens específicas para sua adaptação e desenvolvimento motor frente às crescentes temperaturas e à poluição”, salientou.

Na sequência do evento, Gabriela Leites, da UFCSPA, mergulhou nos aspectos fisiológicos da termorregulação humana, especialmente sob condições de calor extremo e exercício. Ela apontou que, embora o aumento das temperaturas globais de "0,5 graus de temperatura ambiental a cada mais ou menos 10 anos" pareça pequeno à primeira vista, seus impactos na saúde são relevantes, principalmente quando combinados com a umidade e o vento.

Para a professora, entender como o corpo humano lida com o calor, especialmente durante a prática de exercícios físicos, é fundamental. "Na prática de atividade física, somente em torno de 15% a 25% dessa energia é convertida em energia mecânica. O restante, 75% a 80%, é armazenado no nosso corpo na forma de calor", explicou. O problema se agrava em ambientes quentes, onde o corpo não consegue perder calor para o ambiente e, pior, passa a recebê-lo. “A única saída efetiva é a evaporação do suor, que, por sua vez, depende da umidade do ar. Se o ambiente estiver muito seco, há desidratação. Se muito úmido, o suor não evapora, levando à perigosa hipertermia”, detalhou Gabriela.

Ela explicou que os riscos do calor extremo para a saúde vão desde câimbras a condições graves como a síncope, exaustão e até mesmo o colapso pelo calor, que pode ser fatal. "Se nós tivermos um aumento da temperatura como nós temos hoje, a tendência é que, cada vez mais, nós observemos doenças relacionadas ao calor", projetou. A palestrante destacou a importância de medidas de controle, como a avaliação do Índice de Bulbo Úmido e Temperatura de Globo (WBGT), que combina temperatura, umidade e radiação para determinar a segurança de uma atividade.

Um ponto crucial levantado pela professora é a hidratação. Ela ressaltou que, antigamente, o desafio era finalizar uma maratona sem se reidratar, mas hoje o foco é a hidratação personalizada, evitando tanto a desidratação quanto a hiper-hidratação. Neste sentido, em relação à prática de atividades por crianças e adolescentes, Gabriela trouxe uma informação animadora: "Nós não temos um risco aumentado do exercício no calor, quando a gente pensa em uma criança hidratada. Isso significa que, com roupas adequadas e hidratação correta, as atividades outdoor para crianças podem ser seguras”.

O professor Alcides Costa, da UFRGS, trouxe para o debate os desafios aos esportes da natureza no cenário das mudanças climáticas. O docente discutiu os impactos diretos e indiretos nas modalidades afetadas, as consequências para o turismo e possíveis alternativas. Ele listou os indicadores de mudanças climáticas que afetam esses esportes: aumento da temperatura, alterações nos padrões de precipitação, os crescentes desastres naturais e a elevação do nível do mar.

Alcides sublinhou que as consequências negativas desse desequilíbrio ambiental prejudicam o meio ambiente, a sociedade como um todo, a economia e a saúde das pessoas, com foco especial nos esportes na natureza. No que tange aos impactos diretos, ele citou as temperaturas extremas e a radiação ultravioleta.

O professor reforçou os riscos mencionados na palestra anterior, como desidratação e insolação, ressaltando que, em ambientes naturais, os praticantes estão "muito expostos aos elementos naturais como o sol e a chuva", e que fatores como umidade, vento e a diminuição da camada de ozônio amplificam os perigos de câncer de pele e outras complicações como o edema cerebral e a exaustão térmica.