Evento institucional mobiliza comunidade interna e externa nesta semana 

A Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) deu início nesta segunda-feira, 9 de junho, à quarta edição de seu congresso anual, desta vez com o tema "Saúde e Mudanças Climáticas". Com o mote "Diálogos para um futuro sustentável", a cerimônia de abertura, realizada no Salão Nobre, marcou o começo de uma semana de programação, que visa a integrar a produção acadêmica da universidade e promover uma troca de conhecimentos essencial com a comunidade externa, diante dos desafios impostos pelas alterações climáticas.

A coordenadora do congresso, professora Marilene Garrido, expressou satisfação com a concretização do evento. "É com muita alegria que chegamos ao dia inicial do nosso congresso. O quarto congresso UFCSPA é uma trajetória importante que surgiu com a ideia de congregar a nossa comunidade interna, trazer o que fazemos aqui de diferentes setores e naturezas, e também nos abrir para a comunidade, apresentar o que fazemos, trazer as pessoas aqui para dentro e, principalmente, divulgar o que fazemos muito bem", destacou.

Representando o pró-reitor Luís Henrique Telles da Rosa, a pró-reitora adjunta de Extensão, Cultura e Assuntos Estudantis, Deisi Vidor, também deu as boas-vindas aos presentes. "É impressionante o que esse tipo de atividade movimenta a nossa comunidade e as relações da nossa comunidade interna com a comunidade externa", afirmou. Deisi Vidor enfatizou a importância do diálogo: "A extensão está baseada no diálogo entre as diferentes comunidades. É muito importante ter esse espaço, não só para a gente mostrar o que fazemos de melhor em ensino, pesquisa e extensão, mas também para poder trocar, dialogar e mostrar à sociedade e convidá-la a nos conhecer cada vez melhor, e saber de que forma podemos atuar e melhorar esse diálogo entre academia e sociedade".

A pró-reitora adjunta de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação, Graciele Linch, representando a pró-reitora Aline Pagnussat, destacou a riqueza temática do congresso. Ela ressaltou que o evento propicia a discussão de problemas de saúde relacionados a situações emergentes e alterações climáticas, culminando com o tema das spin-offs – da pesquisa ao mercado, com o objetivo de abrir a instituição para a comunidade.

A pró-reitora de Graduação, Marilu Fiegenbaum, saudou a todos e enfatizou a importância do congresso como um espaço de congregação e aprendizado. "Esse momento é muito importante. Pesquisa, extensão, ensino, a gente faz todo dia na universidade. Mas ter uma semana para a gente sentar, se enxergar, ver a apresentação de trabalhos, discutir com pesquisadores renomados, ter internacionalização como foco, e envolver a comunidade interna e externa, incluindo alunos do ensino médio, é um momento muito especial", destacou. 

A reitora Jenifer Saffi iniciou sua fala saudando as colegas de mesa, o vice-reitor e os pró-reitores, e fez uma menção especial à ex-reitora Lucia Pelanda, idealizadora do primeiro congresso da UFCSPA. "Mais do que um evento, esse congresso é um ecossistema de ideias e de ações, porque ele reúne a mostra de ensino, pesquisa e extensão, o seminário da pós-graduação, o seminário de internacionalização e o espaço com escolas, o Conect, que é uma grande honra para nós poder sediar", afirmou, enfatizando que o evento reflete a pluralidade da universidade e sua missão de formar profissionais críticos e engajados nos desafios globais.

A gestora da UFCSPA sublinhou a urgência do tema "Saúde e Mudanças Climáticas", classificando-o como um problema de saúde pública e um dever da universidade. Ela fez um apelo direto aos estudantes, ressaltando que o congresso é para eles e que sua participação vai muito além da sala de aula. "Aqui não é só marcar presença, aqui é fazer parte de um processo formativo que ultrapassa em muito os limites da sala de aula", disse, explicando que a universidade suspendeu atividades acadêmicas tradicionais para que os alunos pudessem se dedicar integralmente ao evento.

"Nesses espaços a gente ganha força, ganha curiosidade, as perguntas vão inspirando as pesquisas e as conexões vão se tornando projetos", celebrou.

O papel da ciência no enfrentamento das mudanças climáticas

A conferência inaugural do 4º Congresso UFCSPA, "O Papel da Ciência no Enfrentamento das Mudanças Climáticas", foi apresentada por Joel Goldenfun, professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS. Ele expressou satisfação pelo convite da Federal da Saúde e trouxe sua experiência na área ambiental para abordar a temática.

Atualmente, Goldenfun é secretário executivo do Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do Estado, explicando que a função do comitê, composto por 41 especialistas, é "fornecer elementos técnicos científicos às mais diversas áreas, para que a tomada de decisão seja a mais correta ou mais correta possível".

Goldenfun detalhou a urgência das mudanças climáticas, diferenciando variabilidade, anomalia e a própria mudança climática. Com base em dados do IPCC, ele mostrou uma tendência clara de aumento da temperatura desde os anos 1970, mais acelerada e intensa do que o previsto. A partir de 25 modelos climáticos do IPH, ele demonstrou que "a intensidade e a frequência dos eventos extremos vai aumentar".

Para ilustrar, comparou os grandes eventos de cheias no Rio Grande do Sul, com três grandes ocorrências em apenas nove meses entre 2023 e 2024. Questionou: "Será que isso é mudança climática? É um período curto, mas os modelos apontam que as mudanças estão ocorrendo mais rápido do que a gente esperava".

O professor também abordou o desenvolvimento de tecnologias sustentáveis, como energias renováveis e captura de carbono, discutindo seus desafios e limitações. Ao falar sobre adaptação e resiliência climática, Goldenfun definiu resiliência como a capacidade de um sistema de suportar, adaptar ou recuperar rapidamente suas funções após um desastre. Ele argumentou que "desastre não é natural, desastre é socialmente construído", explicando que o risco é uma combinação de perigo, exposição e vulnerabilidade. Goldenfun reforça que a ciência é crucial para embasar políticas públicas, mas também salienta a importância de trabalhar "nos territórios e com as comunidades" para garantir a eficácia das soluções.

Para ele, a participação comunitária é a base para políticas públicas eficazes. "Se alguém chega e diz ‘vamos pra área segura’, a população precisa saber onde é que é a área segura. Qual é a rota? Se não, não adianta nada". Ele argumentou que as soluções devem ser construídas com a população, pois só a comunidade pode indicar os alertas mais eficientes ou as rotas de evacuação adequadas para seu contexto específico.

O professor ainda destacou o alinhamento da política nacional de proteção e defesa civil com o Marco de Ação de Sendai, que preconiza as etapas fundamentais na gestão de riscos de desastres: prevenção, mitigação, preparação, resposta e recuperação. Ele explicou que a recuperação não significa reconstruir exatamente como era antes, mas sim "reconstruir melhor", o que já é uma forma de prevenção. “Dentro desse ciclo, a saúde desempenha um papel crucial em todas as fases”, complementou.

Goldenfun também detalhou a atuação do Comitê Científico do Plano Rio Grande, do qual faz parte. O comitê, que inclui 41 especialistas, como a ex-reitora Lucia Pelanda no Núcleo Temático Integrador Saúde, atua de forma consultiva e propositiva, emitindo pareceres e notas técnicas, além de interagir com secretarias finalísticas e a sociedade.

Para Goldenfun, a conscientização e a educação são pilares para o enfrentamento das mudanças climáticas, abrangendo desde a educação formal até a informal, com o envolvimento das comunidades. Ele apontou a falta de percepção de risco e a ausência de cultura de prevenção como grandes desafios no Brasil. O professor propôs a capacitação de técnicos e da população, a criação de uma cultura de prevenção e a realização de ações para "manter a memória viva" dos eventos, como shows e encontros anuais, para que as lições não sejam esquecidas.

Ele enfatizou a necessidade de uma abordagem transversal e não apenas multidisciplinar, envolvendo iniciativas comunitárias, saúde pública, planejamento sustentável e infraestruturas verdes. Por fim, Goldenfun resumiu o papel da ciência: "Não apenas explicar as causas, mas também oferecer as ferramentas e os conhecimentos necessários para a adaptação".