Confira a entrevista com a pró-reitora de Gestão com Pessoas da UFCSPA, Ana Vazquez, e a professora do curso de Psicologia, Joana Narvaez, a respeito dos quase 500 mil afastamentos por doenças psicossociais registrados pelo INSS em 2024
Os afastamentos do trabalho por transtornos mentais bateram recorde no Brasil em 2024, com quase meio milhão de casos, segundo o Ministério da Previdência Social. No Rio Grande do Sul, estado duramente impactado pelas enchentes, foram mais de 37 mil afastamentos, sendo quase metade relacionados à depressão e ansiedade.
Para entender melhor as causas do adoecimento psicossocial no mundo do trabalho e como as organizações podem atuar na promoção do bem-estar dos seus colaboradores, a Assessoria Especial de Comunicação Social (ASCOM) conversou com a pró-reitora de Gestão com Pessoas da UFCSPA, Ana Vazquez, e a professora do curso de Psicologia, Joana Narvaez.
ASCOM: Quais são as maiores causas que contribuem atualmente para níveis tão altos de adoecimento psicossocial no mundo do trabalho?
Professoras Ana Vazquez e Joana Narvaez: O termo psicossocial já demonstra que esses fatores não podem ser vistos apenas como uma condição individual da pessoa que trabalha, mas como consequência de aspectos sociais mais amplos em que ela está imersa no seu cotidiano. Precisamos falar das transformações sociais no mundo em termos de guerras, insegurança alimentar, fome, exploração de recursos sem precedentes etc., cujas notícias demonstram não apenas a difícil a convivência entre países e pessoas, como também as dificuldades que enfrentamos em decorrência dessas situações. Cabe destacar que das situações que vivemos hoje no mundo não se dá por falta de recursos ou capacidades produtivas globais. Precisamos tratar as transformações nas relações entre as pessoas ao longo das últimas décadas, que passou da alta visibilidade espontânea em redes sociais para vivências de medo, violência, brigas desrespeitosas, menor tolerância, entre outros. Finalmente, precisamos falar de eventos globais climáticos. No RS tivemos a catástrofe das enchentes no estado, mas as adversidades climáticas estão ocorrendo em menor escala em outras capitais, além de outros países no mundo. E não poderíamos deixar de apontar a calamidade pública em saúde da pandemia por covid-19 associadas ao aumento de doenças, inclusive algumas que já estariam erradicadas na nossa realidade não fosse a mudança de comportamento em relação às vacinas.
Cada uma dessas transformações afetam o modo como nós pensamos o futuro e a esperança ou falta dela no que diz respeito a qualidade da nossa vida, no trabalho ou fora dele. Situações adversas continuadas, como as que estamos vivenciando, geram maior vulnerabilidade ao adoecimento, por isso é fundamental investir em fatores de proteção psicossociais adequados. Nações, governos, organizações, movimentos sociais, famílias, enfim, todos precisam colaborar para promover a saúde e a proteção psicossocial.
Como as organizações podem atuar para minimizar o adoecimento e promover a saúde e bem-estar no ambiente de trabalho?
Toda organização, pública ou privada, deve investir na saúde laboral como aspecto central da sua estratégia. Diagnóstico de saúde laboral, compliance em saúde mental no trabalho, monitores de engajamento e burnout dos trabalhadores são apenas algumas ferramentas para medir os fatores psicossociais de risco e de proteção à saúde laboral. A psicologia positiva, a salutogênese, dentre outras abordagens, tem vasto material científico demonstrando os resultados diferenciados daqueles que investem sua energia para promover ambientes de trabalho saudáveis e de engajamento no trabalho. Muitas práticas já foram demonstradas como protetivas, há robustos avanços que todas as organizações podem acessar com facilidade.
O Ministério do Trabalho atualizou recentemente a NR 1, com a inclusão de riscos psicossociais. A fiscalização oficial e a punição de empresas são suficientes para enfrentar o problema?
Nunca serão suficientes, mas são necessárias. Devem compor um conjunto de políticas e medidas que visem mudança de mentalidade na forma como o trabalho é organizado, principalmente quanto à ilusão de controle e o viés cognitivo. As decisões adaptativas e as voltadas para iniciativas de engajamento no trabalho são as mais promissoras, seguidas de intervenções em saúde, especialmente as com foco na psicologia positiva.
Os afastamentos são mais frequentes entre as mulheres (64%). O que pode explicar essa diferença?
Esse é um dado recorrente, infelizmente as pesquisas têm demonstrado como a situação da mulher é desigual na sociedade. Um fator que pode explicar é a falta de justiça organizacional no que se refere às diferenças salariais e de oportunidades comparativas na mesma organização ou no mercado de trabalho, especialmente quanto aos cargos de alta gestão alcançados pelas mulheres e que exigem delas um esforço muito maior para sua manutenção, sendo-lhe necessário renunciar em grande escala a espaços de lazer, convivência em família, participação na vida dos filhos e amigos, entre outros. Por outro lado, mitos e preconceitos são expressos nas organizações de forma intangíveis, afetam mais as que têm filhos ou amamentam, mas são vivenciadas também por aquelas que desejam tê-los. O viés da forma como é percebida no trabalho tem muito potencial de fechar portas importantes no trabalho simplesmente pela sua condição de ser mulher. Finalmente, outro fator é a situação de violência contra a mulher, cujos altos níveis estão sendo cada vez mais expressos nos noticiários, a qual – no mínimo - destrói as condições das mulheres no trabalho e na vida, gerando altos níveis de adoecimento, e as impedem de se manter no trabalho, podendo chegar inclusive à tragédia do feminicídio.
Quais são os sinais de alerta para alguém que está em processo de adoecimento psicossocial devido ao trabalho?
Cada caso tem sinais de alerta específicos e é muito importante que a pessoa que os observa seja orientada por um profissional da área, como psicólogos ou psiquiatras. O mais importante é identificar pontos de mudança ou de estresse que sugerem alterações e se informar sobre os melhores encaminhamentos. Não partir de mitos, como ‘quem ameaça, não faz’, ou ‘mudou porque acha que aqui pode fazer o que quiser’, e buscar compreender de verdade cada pessoa de forma diferenciada. E, proativamente, cada um de nós pode buscar ferramentas para promover um ambiente de trabalho agradável, com atitude compassiva e que seja um espaço de segurança nos relacionamentos. Isso certamente é uma conquista diária, mas que está no escopo do que podemos fazer de forma rotineira.
No que tange aos sinais de alerta para o adoecimento psicossocial relacionado ao trabalho, podem se estabelecer através de formas diversas, como sintomas físicos e cognitivos, através da sensação de exaustão, dificuldade de focar e concentrar em tarefas, problemas de sono e etc. Sintomas comportamentais e emocionais também merecem atenção, sobretudo, quando destoantes do padrão habitual, como ansiedade, desmotivação e dificuldade de desconectar e recarregar-se emocionalmente e após períodos de descanso. Nesses casos é importante buscar uma comunicação aberta no espaço de trabalho, além da por suporte profissional.





