Em conferência na UFCSPA, Antônio Gomes de Souza Filho abordou a transição para modelos multidimensionais e a valorização da produção científica relevante

A Federal da Saúde sediou nesta sexta-feira, 2, o segundo dia do VII Seminário de Autoavaliação dos Programas de Pós-Graduação da UFCSPA. A atividade reuniu gestores, docentes e pós-graduandos para debater os rumos do Sistema Nacional de Pós-Graduação frente às diretrizes que estruturam o horizonte avaliativo até 2029. A programação contou com a palestra “Desafios e Perspectivas Futuras da Pós-Graduação com Base nas Diretrizes Atuais de Avaliação da CAPES”, ministrada pelo presidente e diretor de Avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Antônio Gomes de Souza Filho.
Durante a mesa de abertura, a reitora Jenifer Saffi celebrou os avanços obtidos pela instituição, destacando que mais de metade dos programas de pós-graduação subiu de nota e comemorando a conquista do primeiro conceito 6 da UFCSPA, além da inserção em duas redes do programa Capes Global. Jenifer defendeu que o fortalecimento da pós-graduação passa pela internacionalização democrática e pelas alianças regionais. "Acreditamos em uma internacionalização que seja equitativa, democrática, de amplo acesso a toda a comunidade", afirmou a reitora, enfatizando que parcerias com países latino-americanos e a cooperação Sul-Sul são fundamentais para que a ciência responda a grandes desafios como envelhecimento e mudanças climáticas.
Na sequência das saudações institucionais, a pró-reitora de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação da UFCSPA, Aline de Souza Pagnussat, enfatizou o papel da autoavaliação e do planejamento estratégico dos programas. A docente detalhou os projetos estruturantes em andamento nos eixos de ensino, pesquisa e inovação viabilizados pelas redes do Capes Global, citando a cooperação com o Karolinska Institutet na pós-graduação, com o Imperial College e o George Institute em ciência de implementação, e com a Heriot-Watt University em inovação. "Essas iniciativas serão projetos estruturantes das nossas redes e serão oferecidas a todas as outras universidades parceiras, principalmente no eixo de saúde e bem-estar", observou a pró-reitora.
Ao assumir a palavra, Antônio Gomes de Souza Filho destacou que o sistema brasileiro alcançou um nível de maturidade que exige a superação de modelos estritamente quantitativos. O dirigente explicou que a Capes consolida uma política de avaliação responsável, centrada no mérito substantivo e no fim da dependência de métricas indiretas de periódicos. "Nós já passamos da fase onde o volume é o mais importante", pontuou o presidente. "O que nós precisamos agora é focar no que é relevante, no que é com destaque", completou, destacando a eliminação do Qualis na classificação dos artigos para que a avaliação passe a reconhecer a qualidade e a repercussão de cada produto individualmente.
A transição metodológica para os conceitos 6 e 7 também esteve no centro da explanação. Souza Filho esclareceu que a excelência passa a incorporar uma perspectiva multidimensional: enquanto a nota 7 exige destaque em todas as dimensões - mantendo a internacionalização como requisito determinante -, a nota 6 passa a admitir que programas sem inserção internacional convencional atinjam a excelência caso apresentem liderança científica, formação de escola, diversidade e forte impacto transformador no território ou nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
"A ideia de interagir com a sociedade e a ideia de ter os casos de impacto é exatamente a ideia de que a gente quer capturar esse processo: o que os programas das instituições fazem que transforma a sociedade", explicou o professor. Souza Filho detalhou a transição avaliativa dos inputs (condições e infraestrutura) e outputs (titulações e artigos) para os outcomes (impactos reais gerados pela pós-graduação). Segundo ele, evidenciar com clareza essas transformações para a sociedade é crucial inclusive para legitimar o orçamento público da agência, atualmente em cerca de R$ 5 bilhões anuais, na disputa de recursos do país.
Para além do meio acadêmico, o presidente chamou a atenção para a inserção profissional dos egressos. Souza Filho apresentou dados demonstrando que o país forma cerca de 92 mil mestres e doutores por ano, sendo 26 mil doutores, contingente que não pode ser absorvido exclusivamente pelas instituições de ensino e pesquisa. Ele ressaltou a urgência de ampliar a presença de doutores na indústria e no setor produtivo nacional, frisando que a transferência de tecnologia só atinge escala quando universidade e setor produtivo concebem pesquisas em parceria desde a origem, além de cobrar maior aproveitamento da produção científica brasileira na elaboração de políticas públicas governamentais.
Diante do avanço de ferramentas computacionais e modelos de linguagem, Souza Filho abordou a preparação de um documento orientador que a Capes lançará em novembro para auxiliar as instituições no enfrentamento da dependência algorítmica. O dirigente revelou que o cronograma foi intencionalmente planejado para fundamentar as diretrizes nas ciências cognitivas. Conforme ponderou, as instituições de ensino têm a missão imediata de "preservar a soberania cognitiva das pessoas que estão formando num ambiente onde tem assistência algorítmica".
Concluindo a conferência, Souza Filho antecipou que a Capes lançará em novembro um novo formato de avaliação de novos cursos (APCN) estruturado por temáticas e multi-áreas, acolhendo propostas inovadoras e interdisciplinares que rompam o engessamento das 50 áreas tradicionais. Em paralelo, informou que os procedimentos operacionais para a apresentação dos casos de impacto e da avaliação multidimensional do ciclo de 2029 serão consolidados com as coordenações no Seminário de Meio-Termo, no final do próximo ano, reiterando que a continuidade e a estabilidade técnica da Capes resguardam políticas de Estado voltadas à soberania científica do país.





