Pesquisadoras da UFRGS abordam a urgência de integrar raça e gênero nas práticas de cuidado em saúde e nas análises sobre violência de Estado

A Comissão de Prevenção e Enfrentamento ao Assédio e à Discriminação (CPEAD), em parceria com o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi), realizou na terça-feira, 18, o encontro Interseccionalidade: da vulnerabilidade à potência. Realizada no Teatro Moacyr Scliar, a atividade reuniu a professora do Departamento de Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Luciana Rodrigues e a socióloga e doutoranda pela UFRGS Daiane Carvalho para discutir as relações entre raça, gênero e sistemas de opressão.
Daiane Carvalho compartilhou os resultados de sua pesquisa desenvolvida a partir da análise de mais de 200 narrativas de mulheres atendidas no Núcleo de Defesa de Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Sul, entre 2022 e 2025. A pesquisadora apontou que as mulheres negras figuram como as principais vítimas da violência de Estado no ambiente doméstico, destacando que as invasões de domicílio e agressões funcionam como mecanismos coloniais de desumanização.
Segundo a socióloga, a atuação policial violenta busca desestruturar o sujeito tanto física quanto psicologicamente para justificar a agressão. "A violência policial contra mulheres é uma violência que se articula muito pelo ataque à psique e ao físico. É preciso desestabilizar essas mulheres enquanto humanas, enquanto sujeitos, produzir mulheres sem gênero para justificar essa crueldade", explicou Daiane, ressaltando que marcadores de raça e gênero operam ativamente na produção das práticas estatais.
A pesquisadora frisou que esses relatos também materializam redes e estratégias de sobrevivência e enfrentamento. "Quando eu estava lendo sobre a dor, eu também estava lendo sobre como a luta e a vida eram produzidas nesses contextos. Narrar de novo, rememorar traumas passados para contar suas versões da história nesses casos de violência de Estado, é em si a materialização de estratégias de resistência", concluiu.
Na sequência, a professora Luciana Rodrigues propôs uma reflexão sobre a interseccionalidade no cotidiano acadêmico e profissional, com ênfase na formação de trabalhadoras e trabalhadores da área da saúde. A docente ressaltou que as dimensões existenciais dos sujeitos não podem ser ignoradas nas práticas de atenção e cuidado, sob o risco de reproduzir lógicas coloniais que tratam determinados corpos como descartáveis.
Em sua intervenção, Luciana fez a leitura de uma carta endereçada a uma mulher negra fictícia, utilizando o formato para aproximar o diálogo e compartilhar vivências sobre a presença de corpos negros na universidade. "Com todas as nossas diferenças, sermos negras em um mundo antinegro torna todas nós alvos da violência racial. Os caminhos me levaram à docência e nela cheguei tendo que aprender a exercitar me proteger das violências das relações que constituem esse espaço acadêmico", destacou no texto.
A docente enfatizou que a análise crítica das opressões precisa se traduzir em acolhimento e sustentação comunitária nos espaços institucionais. "Precisamos é cultivar políticas de cuidado. Essa não é uma carta sobre o pessimismo, é uma carta para guardar esse protegimento", afirmou Luciana, citando autoras como bell hooks, Lélia Gonzalez e Christina Sharpe para defender a partilha de histórias como prática emancipatória.
Ao encerrar o painel, a palestrante convidou o público a adotar a perspectiva interseccional como ferramenta indispensável para transformar a atuação profissional e as relações humanas. "A academia, a sociedade, as relações que desejamos começam com a possibilidade de imaginar. Que a gente possa trabalhar com a interseccionalidade como uma sensibilidade analítica e ver o que efetivamente isso faz de diferente nas nossas atuações e no nosso cotidiano", finalizou.





