NEABI, DCE e Coletivo Negro Raça convidaram o escritor para o debate “Universidade Antirracista: Por onde começamos?”

O Auditório Moacyr Scliar lotou para ouvir o premiado escritor Jeferson Tenório na noite da última quarta-feira, 10. Jeferson veio até a UFCSPA conversar com a comunidade acadêmica no evento “Universidade Antirracista: Por onde começamos?” promovido pelo Núcleo de Estudos Africanos, Afro-brasileiros e Indígenas (NEABI), pelo Coletivo Negro Raça e pelo Diretório Central de Estudantes (DCE). O escritor sofreu uma recente onda de censura com sua obra “O Avesso da Pele” por escolas que tentaram banir o romance das bibliotecas. Poucas semanas depois, ao final de março, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) inseriu o título na lista das leituras obrigatórias do seu vestibular.
“O Avesso da Pele” aborda as duras camadas do racismo estrutural. O autor falou sobre o mesmo tema para as mais de 200 pessoas no auditório, da perspectiva dos desafios que os estudantes negros enfrentam na educação e no Ensino Superior. Para trocar experiências e percepções com o escritor e o público, estiveram ao lado de Jeferson estudantes que participam do DCE e atuam no Coletivo Negro Raça: Carlos Vieira, Thayná Fernandes e Giorgio Pereira, estudantes do curso de Medicina, e Alana Amorin, estudante de Nutrição, que também integra o Levante Popular da Juventude. O debate teve a mediação da professora Aline Vanin, do NEABI.
Por toda a noite, Jeferson Tenório trouxe ideias de pensadores negros como ponto de partida para as reflexões, em contraposição às premissas tradicionais do conhecimento ocidental. Entre os citados pelo escritor, nomes como Sueli Carneiro, Conceição Evaristo, Frank B. Wilderson III, Oyèrónké Oywùmí e Frantz Omar Fanon. Este último é autor do livro “Pele negra, máscaras brancas” e trata das dificuldades que o escritor, psiquiatra e filósofo político negro natural da colónia francesa da Martinica, vivenciou durante sua formação. Jeferson questiona “Por que estudar Freud e não Frantz Omar Fanon?” e completa: “É preciso compreender conhecimentos de outros lugares para chegar exatamente nisso, na Universidade”.
Ativo no combate ao racismo na Universidade, Giorgio Pereira perguntou ao convidado de forma direta: “Mas então, qual o papel dos brancos no combate ao racismo?”. Na sua resposta, o escritor propõe que “seja lançado um olhar honesto, difícil, duro e cotidiano sobre a branquitude para de fato movimentarmos peças e mudarmos estruturas”. Para Jeferson, os brancos que se colocam como aliados antirracistas precisam começar por entender suas condições: “Primeiro, pensar o seu lugar, de onde vem, que tipo de poder e privilégio essa pessoa tem, porque ela pode usar disso para agir. É possível. Quando temos aliados em determinados postos, conseguimos movimentos de resultados mais efetivos. Mas é preciso um pouco de coragem da branquitude”.
Sobre o termo “branquitude”, recorrente nas discussões mais recentes sobre racismo, Jeferson Tenório especifica: “Não o entendam como um xingamento, mas como racialização dos corpos brancos. Hoje quem é racializado é o corpo negro, por isso é importante falar em branquitude. No mundo ideal, não seria necessário racializar ninguém, mas na atual estrutura, é preciso racializar. Então, é preciso um profundo olhar-se”. O escritor ainda compara e evidencia as diferenças entre os processos de autorreconhecimento das pessoas pretas e das pessoas brancas: “Os negros já estão bem cansados de se analisarem e se olharem. Essa análise interna dura a vida toda. É um processo difícil até que você consiga se orgulhar dos seus traços, do seu cabelo, porque há toda uma estrutura para que você não se sinta bem na sua pele.”
Próximo ao fim da palestra, Jeferson Tenório discute a proposta da escritora nigeriana Oyèrónké Oywùmí, que defende a audição como meio central de compreensão do mundo, em detrimento da visão, predominante no ocidente: “É mais fácil dominar quando você visualiza as diferenças. Oywùmí traz a perspectiva yorubá, na qual ouvir o outro é a forma de apreensão do conhecimento. A saída que ela propõe é que a gente não parta da diferença, mas da singularidade, olhar para as pessoas como alguém único. É uma utopia? É. Mas se a gente conseguir se aproximar dessa utopia de não fazer julgamento de valor, conseguimos um pouco de avanço.”
O NEABI promoverá, ainda em 2024, outros eventos abertos ao público para debater sobre perspectivas e medidas concretas de como construir uma Universidade antirracista e acolhedora para pessoas pretas.


Da esquerda para a direita: Carlos Vieira, Thayná Fernandes e Giorgio Pereira, Jeferson Tenório, Aline Vanin e Alana Amorin






Fotos: Camila Cunha/Ascom UFCSPA





