Evento reuniu comunidade universitária para debater enfrentamento ao racismo, políticas institucionais e estratégias para letramento racial

A 1ª Jornada Antirracista da UFCSPA reuniu estudantes, docentes, técnicos e terceirizados na tarde de 27 de novembro, no Auditório Heitor Cirne Lima, para discutir o enfrentamento ao racismo na universidade e apresentar novas políticas institucionais voltadas à equidade racial. A atividade integrou uma programação em duas datas, 27 de novembro e 4 de dezembro, dedicada a debater racismo, ações afirmativas e os impactos dessas agendas na formação em saúde.
Na abertura da jornada, o vice-reitor Rafael Vargas ressaltou o peso simbólico e concreto do encontro para uma instituição da área da saúde, reforçando que o tema não pode ser tratado como algo distante do cotidiano profissional: “Na saúde, o racismo não pode ser visto apenas como um tema abstrato: é um determinante direto de desigualdade, adoecimento e sofrimento. Quando a educação ignora esse fenômeno, ela o reproduz; quando reconhece, pode transformá-lo”.
Ao comentar os desafios da inclusão, Vargas recorreu a um exemplo concreto da realidade atual da instituição. “Neste ano, temos um dado um pouco ambíguo que nos marca aqui na UFCSPA: a obtenção da primeira bolsa permanência para uma estudante quilombola. É ambíguo porque é uma conquista, em si, para a aluna e para nós. Mas é negativo quando pensamos que temos somente uma aluna quilombola na universidade, diante de uma demanda enorme”, observou. Para ele, esse quadro reforça a necessidade de ampliar o ingresso e a permanência de indígenas e quilombolas e de assumir um compromisso público “por uma UFCSPA mais plural e mais segura”.

Na sequência, o pró-reitor de Ações Afirmativas e Assuntos Estudantis (Prae), Rafael Cáceres, resgatou a própria trajetória e relatou como a convivência com coletivos estudantis e comissões de gênero e identidade o levou a revisitar a história da família e a compreender o racismo como fenômeno estrutural e estruturante no Brasil. Ele lembrou que, quando chegou à universidade, em 2013, praticamente não via estudantes negros nos corredores e que a adoção de políticas de ingresso a partir de 2018 mudou a composição do corpo discente, com o fortalecimento de capacitações e grupos de trabalho dedicados às ações afirmativas.
Cáceres destacou a criação da Prae, aprovada em outubro, e da Coordenação de Ações Afirmativas como marcos institucionais que respondem a uma longa história de barreiras estatais à população negra. “Existe um compromisso institucional que nasce justamente da percepção de que o Estado brasileiro construiu uma série de obstáculos para que pessoas negras acessassem escola, terra e direitos”, afirmou, defendendo que a universidade avance simultaneamente nas políticas de ingresso e de permanência.
Representando o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi), a estudante de Psicologia Gabrielle Oliveira trouxe a perspectiva de quem vivencia o cotidiano do campus como “estudante identificado”. Ela comparou essa condição ao conceito de “paciente identificado” na psicologia e observou que estudantes negros muitas vezes são reduzidos à aparência, enquanto suas produções acadêmicas seguem invisibilizadas: “Na turma de psicologia, eu sou a ‘que tem o cabelo crespo’, e não a estudante do trabalho sobre impercepção”, provocou.
Gabrielle lembrou episódios recentes que marcaram a comunidade, como o desenho de uma suástica em área de circulação e uma denúncia de racismo contra uma trabalhadora da universidade, episódios que, segundo ela, não tiveram respostas à altura da gravidade dos fatos. Para a estudante, a jornada precisa ir além do simbolismo de novembro: “Estamos de fato sendo antirracistas, ou apenas repetimos frases de efeito? Não dá mais para tratar o racismo como algo superficial”, questionou, defendendo que a formação em saúde incorpore de forma consistente os determinantes raciais.
Ao apresentar o “Guia Antirracista: caminhos para o letramento racial na UFSPA”, a mestre em Ensino na Saúde, Luciana Marin, reforçou que o material nasce diretamente das vozes de estudantes e trabalhadores, que relataram episódios de racismo no cotidiano acadêmico. Situações como a exigência de crachá apenas de estudantes negros, toques não consentidos no cabelo e a exclusão de pessoas negras de grupos de trabalho foram citadas por ela como exemplos de práticas que, embora muitas vezes naturalizadas, evidenciam o racismo institucional e justificam a necessidade de um instrumento pedagógico voltado à sensibilização de toda a comunidade.
A assistente social destacou ainda que o guia se organiza como uma porta de entrada para o letramento racial, combinando conceitos, legislações, referências teóricas e indicações de canais institucionais de denúncia, sem perder a linguagem acessível e o diálogo com a realidade local. “O letramento racial não se constrói com um curso isolado ou uma única jornada; é um processo demorado e contínuo”, resumiu, ao defender que a área da saúde assuma, como compromisso social, uma formação crítica e permanente, capaz de reconhecer o racismo como determinante da saúde e de sustentar políticas antirracistas como política de Estado dentro da universidade.
A ouvidora da UFCSPA, Vanize Flores, explicou o papel da Ouvidoria no enfrentamento ao racismo, detalhando os fluxos de denúncia pelo sistema Fala.BR e os requisitos de autoria e materialidade para que processos administrativos possam avançar. Ela alertou para o problema da subnotificação e reforçou que o canal acolhe toda a comunidade interna e externa: “Cada caso é único, e notificar ajuda a mapear padrões e orientar ações preventivas”, disse, ao recomendar que vítimas busquem também apoio em outras instâncias da universidade.

O Diretório Central dos Estudantes participou com falas de Alana Amorim e Carlos Vieira. Alana descreveu o racismo vivido no campus como “escancarado”, em contraste com a ideia de discriminação silenciosa. Ela relatou situações em que estudantes negros precisam mostrar o crachá para circular, são interpelados pela segurança sobre o que “estão fazendo ali” e são confundidos com trabalhadores da manutenção ou do restaurante universitário, mesmo quando estão identificados com o nome do curso. “Enquanto avançamos no ingresso de estudantes pretos, pardos e quilombolas, os racistas também se sentem mais corajosos para agir”, afirmou, ao lembrar episódios de violência ocorridos em espaços de convivência.
Já o estudante Carlos Vieira enfatizou as dificuldades de fazer movimento estudantil na universidade em um contexto em que o medo de represálias ainda inibe denúncias e manifestações mais contundentes. Ele relatou que, mesmo com canais anônimos, muitos alunos hesitam em registrar casos de racismo por receio de serem identificados e sofrerem consequências acadêmicas, e classificou como “pergunta violenta”, já ouvido de professores da UFCSPA, o questionamento recorrente sobre por que estudantes negros levam mais tempo para se formar, sem que se considere o peso acumulado de questões financeiras, emocionais e do próprio racismo no percurso universitário.
Ao compartilhar sua experiência pessoal, a professora Francine Santos, do curso de Nutrição, reforçou que as microagressões e tensões citadas pelos estudantes também fazem parte do cotidiano de docentes negros na instituição. Ela lembrou que ingressou no quadro da universidade pelo primeiro edital com reserva de vagas para a docência e relatou que essa vaga segue contestada judicialmente, o que a coloca em uma situação permanente de incerteza: “Imaginem entrar todos os dias em sala de aula sem saber se vai continuar com o emprego ou não, porque uma decisão judicial pode te tirar do teu lugar de direito”, disse, ao descrever o impacto emocional e profissional desse processo.
Francine afirmou considerar legítimo que concursos públicos sejam questionados, mas criticou a personalização das ações, quando o alvo passa a ser diretamente quem ocupa a vaga garantida por ações afirmativas. Para ela, esse tipo de contestação tem efeitos concretos sobre a relação pedagógica e evidencia por que é urgente ampliar o letramento racial também entre pessoas brancas: “Talvez por isso 50% do movimento estudantil seja formado por estudantes negros; somos nós que, historicamente, temos de estar na linha de frente, mas precisamos de aliados comprometidos com essa agenda”, completou, defendendo o uso coletivo dos caminhos institucionais para registrar e transformar situações de racismo e discriminação.

Na parte final da programação, a reitora Jenifer Saffi apresentou um conjunto de ações estruturantes que dialogam com a jornada, como o programa Afirma-SUS, os novos editais de bolsas de desenvolvimento institucional e o fortalecimento do programa Sankofa, voltado à extensão em territórios negros e quilombolas. Ela destacou ainda a proposta de nova norma de concursos com reserva de 30% das vagas para pessoas pretas, pardas, indígenas e quilombolas e o reconhecimento nacional da experiência da UFCSPA em bancas de heteroidentificação.
Jenifer explicou que o programa de apoio ao ensino, pesquisa e extensão se organiza em três eixos articulados. No Eixo 1, “Educação para as Relações Étnico-Raciais e Diversidade no Ensino Superior”, serão realizados cursos de formação para servidores, técnicos, estudantes e terceirizados, com possibilidade de expansão para escolas públicas, com o objetivo de induzir mudanças culturais por meio de processos contínuos de reflexão e prática coletiva.
O Eixo 2, “Objetos de Aprendizagem para o Letramento Racial”, prevê a atualização e ampliação de um repositório de materiais produzidos na universidade, reunindo recursos didáticos, audiovisuais e guias para apoiar o letramento racial dentro e fora da instituição; já o Eixo 3, “Saúde das Populações Negras e Quilombolas”, reafirma a identidade da UFCSPA como universidade da área da saúde ao expandir pesquisas e ações de extensão em territórios negros, quilombolas e periféricos.
Convidada da tarde, a deputada federal Daiana Santos relacionou o debate local às discussões em curso em Brasília sobre reparação, proteção de territórios e financiamento de políticas públicas para populações negras, quilombolas e indígenas. “Reparação não se faz apenas com discursos; exige investimento, financiamento e prioridades claras”, afirmou, ao defender que universidades públicas da área da saúde formem profissionais capazes de compreender os determinantes sociais e raciais da saúde no contato direto com a população.

A deputada chamou a atenção para a dimensão estrutural do financiamento das políticas públicas ao explicar que os recursos destinados à UFCSPA e a iniciativas como a Jornada Antirracista não são “verbas pessoais”, mas recursos da população que retornam aos espaços públicos por meio das escolhas políticas de cada mandato. “Reparação não se faz com palavras bonitas; faz-se com oportunidade, possibilidade, investimento e, principalmente, financiamento”, afirmou, ao defender que prioridades como formação, diversidade e fortalecimento das universidades públicas estejam no centro da definição do orçamento federal.
Em sua fala, Daiana relacionou diretamente o debate travado no auditório à agenda do Congresso Nacional, citando a derrubada de vetos sobre exploração de territórios, inclusive quilombolas, e a tramitação da PEC 27, que cria um fundo voltado à reparação histórica. Para a parlamentar, decisões como essas evidenciam que o país ainda caminha “a passos curtos” nesse processo, ao mesmo tempo em que segue convivendo com iniciativas que fragilizam direitos de populações negras, indígenas e ribeirinhas e impactam, inclusive, a agenda ambiental discutida em fóruns como a COP-30.
Ao falar a partir da própria trajetória como sanitarista e educadora popular, a deputada aproximou o tema do racismo das práticas em saúde, lembrando a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra e os determinantes sociais que condicionam a produção e a ausência de saúde. Ela reforçou que universidades da área da saúde têm papel central nesse cenário, ao formar profissionais capazes de compreender o contexto em que vivem as populações vulnerabilizadas e de disputar projetos de sociedade “mais justa, menos desigual”, em que o combate ao racismo esteja articulado a políticas de Estado de longo prazo.
A programação da jornada terá continuidade em 4 de dezembro, com discussões centradas na temática “Segunda Década Internacional de Afrodescendentes: desafios e perspectivas para a efetividade das ações afirmativas no Brasil”. Confira a programação completa dos dois dias de evento neste link.





