Gabriel Waldman, de 87 anos, contou sua história de vida para estudantes e servidores na última segunda-feira, 16

Professores, técnico-administrativos e alunos da UFCSPA lotaram o anfiteatro Heitor Masson Cirne Lima na última segunda-feira, 16 de junho, para assistir à palestra do sobrevivente do Holocausto, Gabriel Waldman. Hoje com 87 anos, Gabriel sobreviveu juntamente com a mãe aos horrores da guerra, migrando por diversos países até chegar ao Brasil nos anos 1950. Durante o encontro, o homem nascido na Hungria trouxe detalhes sobre sua trajetória de vida marcada não apenas pela dor e perda, mas também pela resiliência e esperança.

"Digamos que eu nasci na família errada, no lugar errado e na época errada”, resumiu Gabriel ao relembrar a infância em Budapeste, durante a ascensão do nazismo. “O herói de tudo isso foi minha mãe, que me cuidava e tentava fazer com que eu sobrevivesse”, reconheceu.

O cotidiano de violência e indiferença na Hungria durante o avanço do regime de Adolf Hitler ficou marcado em sua memória. “Matavam-se 200, 300 pessoas e a vida continuava normal, como se nada tivesse acontecido. Assim eram as coisas na Europa Central. Matar era ordem do dia”, relatou.

A luta pela sobrevivência ganhou contornos dramáticos quando mãe e filho buscaram refúgio em prédios protegidos por embaixadas de países neutros. “No prédio, que devia ter 50, 60 pessoas, havia 500 refugiados. Não tínhamos condições de dormir ao mesmo tempo, era preciso revezar”, contou, ressaltando a escassez de água potável e o medo constante. “Numa época extremada como aquela, não existiam crianças. O que existiam eram adultos prematuros”, lamentou.

Gabriel narrou como a família foi dilacerada pela guerra. “Do lado do meu pai, ninguém sobrou. Meus avós, tios, primos, todos levados para Auschwitz e assassinados. Não sobrou ninguém”, recordou. Após a guerra, ele e a mãe ainda passariam anos sob o regime comunista na Hungria antes de conseguir refúgio no Brasil: “O Brasil foi o único país, a única exceção, que nos permitiu vir para cá. E aqui estou eu”.

A chegada ao país trouxe novos desafios, mas também a oportunidade de reconstruir a vida. Entre as marcas mais profundas de sua trajetória está o relacionamento com Ingrid, filha de um ex-comandante do campo de extermínio de Treblinka, como Gabriel viria a descobrir anos depois.

“Eu chamo este episódio de meu segundo holocausto. O pai dela era nada menos que comandante de um campo de extermínio onde foram cometidas 850 mil mortes. Pode ser que meus parentes também tenham morrido no campo dele”, revelou. Como uma forma de encarar o impacto emocional da descoberta, que o acompanhou durante toda a vida, Gabriel contou aos alunos que sua "terapia" foi escrever: o resultado deste esforço foi a publicação, em abril de 2024, do livro "Ingrid, a Filha do Comandante".

No encerramento de sua fala, Gabriel resgatou uma mensagem de esperança, destacando que, apesar de toda a carga familiar, Ingrid resistiu e escolheu namorar um judeu. “Já na primeira geração daquela família, houve uma pessoa que reagiu. E não deve ter sido fácil essa reação. Isso é a parte que eu chamaria de esperança de tudo aquilo que eu falei até agora. Maldade existe, sem dúvida. Mas existe esperança”, concluiu. Como mensagem final, Gabriel conclamou os estudantes a resistirem ao ódio e a lutarem contra todos os tipos de discriminação.

A atividade realizada na UFCSPA teve o apoio do Centro de Educação e Memória do Holocausto (Stand With Us Brasil) e da Federação Israelita do Rio Grande do Sul.