Encontro no Prédio 3 articula cooperação científica, inclusão e avaliação institucional da universidade

A Federal da Saúde sediou, nesta quarta-feira, 30 de setembro, no anfiteatro do Prédio 3, a abertura do IX Seminário de Internacionalização. Realizada de forma articulada ao VII Seminário de Autoavaliação dos Programas de Pós-Graduação, a conferência inaugural reuniu gestores, pesquisadores e pós-graduandos em torno do tema "Desafios e oportunidades para a pós-graduação em contextos emergentes", ministrada pela professora Estela Miranda, da Universidade Nacional de Córdoba (UNC). A atividade conjunta buscou debater caminhos para fortalecer a circulação do conhecimento e a cooperação regional em um cenário de profundas transformações e desafios no ensino superior.

A coordenadora do Escritório de Internacionalização, Isabela Esperandio, destacou o histórico da iniciativa iniciada em 2017 e a escolha de integrá-la ao seminário de autoavaliação institucional. "Temos a internacionalização como um meio para melhoria das nossas atividades, maior cooperação e uma melhor formação dos nossos alunos, pensando também nas habilidades culturais e em como isso impacta na formação e no projeto do profissional quando ele sair da instituição", apontou a gestora. Isabela ressaltou que a recente aprovação de propostas institucionais no edital Capes Global reforçou o foco na internacionalização da pesquisa e da pós-graduação, buscando avanços científicos compartilhados diante de dificuldades comuns a diferentes países.
"A nossa ideia dentro da pós-graduação é tentar proporcionar aos estudantes um ensino mais internacionalizado e desenvolver competências que tornem o profissional mais apto a circular em diferentes ambientes, em ser um cidadão do mundo", afirmou a pró-reitora de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação, Aline Pagnussat. A gestora enfatizou a necessidade de pensar a internacionalização de forma institucional e estrutural para o ensino, a pesquisa e a inovação, superando ações isoladas de mobilidade. Entre as frentes em andamento, citou o projeto Trajetórias Internacionais, voltado ao mapeamento e fomento à oferta de disciplinas internacionais, além de interlocuções com instituições estrangeiras para apoiar a reestruturação curricular da pós-graduação na universidade.

Desafios e oportunidades para a pós-graduação
Ao analisar o panorama contemporâneo da educação superior, Estela Miranda recorreu aos estudos da pesquisadora brasileira Marília Morosini sobre os chamados contextos emergentes, caracterizados pela tensão entre duas racionalidades. De um lado, situa-se o modelo histórico centrado na pertinência social, na cultura e na ciência voltada ao atendimento das necessidades públicas financiadas pelo Estado; de outro, a lógica do mercado global de conhecimento imposta a partir dos anos 1990 por organismos internacionais, pautada por critérios de eficiência mercantil, classificação em rankings e atração de recursos próprios. Conforme alertou a conferencista, o debate atual coloca em contraste a concepção da produção científica como bem social frente a uma perspectiva utilitarista, orientada unicamente à geração de receitas, o que tende a submeter os acordos internacionais à lógica de custo-benefício e a concentrar financiamentos em áreas de retorno econômico imediato em detrimento das ciências sociais e humanidades.
O debate alcançou ainda os limites da mobilidade acadêmica física convencional, que atinge apenas entre 2% e 3% dos estudantes em nível global e enfrenta barreiras geopolíticas, encarecimento de custos e políticas restritivas de vistos. "A mobilidade física tornou-se elitista, e é preciso pensar outras formas de internacionalização que não sejam unicamente a mobilidade física", declarou a docente. Miranda advertiu que os formatos tradicionais de intercâmbio desconsideram as novas realidades demográficas da comunidade acadêmica, como a presença expressiva de alunas mães e trabalhadoras que não têm suas demandas e custos familiares contemplados pelos valores das bolsas de estudo. Diante disso, defendeu modalidades complementares, como a internacionalização em casa e a formação de redes de cooperação científica voltadas à investigação e publicação conjunta sobre problemas regionais compartilhados.
A autonomia científica e os riscos à liberdade acadêmica também integraram o diagnóstico da docente argentina. Miranda explicou que o cenário político e geopolítico contemporâneo tem ameaçado a autonomia universitária, ressaltando que o desmantelamento e o encolhimento das dotações destinadas à ciência e tecnologia afetam diretamente as ações de internacionalização e estimulam a fuga de cérebros para países centrais por meio de mecanismos de captação salarial de talentos formados no Sul Global. Como exemplo do avanço dessas restrições, citou o quadro crítico de mais de 300 dias de desfinanciamento vivido pelas universidades públicas e institutos científicos na Argentina, a despeito de determinações judiciais em favor do repasse de verbas.
Ao resgatar as diretrizes das Conferências Regionais de Educação Superior organizadas pela Unesco-Iesalc, a palestrante reivindicou uma internacionalização emancipatória, solidária e orientada pelo eixo Sul-Sul, na qual a educação superior seja defendida como bem público social e dever do Estado. Para concluir, Miranda compartilhou uma reflexão extraída do prefácio de sua autoria para uma coletânea de estudos internacionais da universidade: "Devemos equilibrar a internacionalização com a valorização dos saberes locais e a salvaguarda da identidade cultural, assumindo a universidade não apenas o papel de espaço formativo, mas o de agente político comprometido com a justiça social e a diversidade".





