Pesquisadora da Fiocruz realizou a aula magna da instituição

A UFCSPA recebeu nesta segunda-feira, 23, a pneumologista e pesquisadora da Fiocruz Margareth Dalcolmo para a conferência de abertura do ano letivo da universidade. A palestra foi realizada no Salão Nobre e versou sobre "Saúde em tempos de mudanças climáticas e envelhecimento". A atividade contou com o apoio da Santa Casa.

A abertura da sessão foi realizada pela reitora Jenifer Saffi, que lembrou o aniversário de 65 anos da UFCSPA enquanto instituição, ocorrido no dia 22 de março, e explicou a importância da atividade: "ao reunir nossa comunidade universitária em torno de uma personalidade de destaque da ciência brasileira nós, mais uma vez, reafirmamos nosso compromisso com produção de conhecimento e com formação de profissionais críticos, éticos e comprometidos com os desafios contemporâneos". E introduziu o tema da palestra: "Afinal em que mundo estamos cuidando ou tentando cuidar das pessoas? Um mundo que está envelhecendo rapidamente e que ao mesmo tempo adoece o seu próprio ambiente; um mundo em que os eventos climáticos afetam diretamente os sistemas de saúde e em que as desigualdades sociais persistem como determinantes das doenças, e em que os desafios da saúde única emergem com uma velocidade que exige respostas igualmente rápidas, mas também mais complexas", refletiu.

Margareth Dalcolmo iniciou a palestra lembrando a enchente que atingiu Porto Alegre em 2024 para introduzir o tema das mudanças climáticas. Ela apresentou dados que evidenciam o aumento de eventos globais de desastres ditos naturais. Um dos maiores problemas enfrentados pelo Brasil nesse panorama são as queimadas, relacionadas a temperaturas extremas e secas. "As queimadas são responsáveis por um impacto imenso no aumento da mortalidade/morbidade por doenças respiratórias".

Conforme a pesquisadora, as alterações climáticas estão provocando alteração no mapa das doenças ao redor do mundo. Doenças antes consideradas tropicais estão aparecendo em regiões de clima temperado: "Nenhum de nós imaginava ver dengue na França, mas hoje tem dengue na França, tem dengue na Espanha. As doenças ditas tropicais, transmitidas ou não por vetores, migraram das áreas tropicais para as áreas temperadas. Há também uma mudança de sazonalidade. Um exemplo é o do vírus sincicial respiratório, que tem sazonalidade no início do outono. Em 2023, o pico ocorreu em dezembro, no verão. A sazonalidade foi totalmente rompida e não ocorreu apenas no Brasil. Isso foi uma consequência também dos desastres climáticos", enfocou.

Margareth também falou sobre o envelhecimento da população mundial. "Observando gráficos sobre a velocidade do envelhecimento, se percebe que o mundo todo envelhece, mas com uma diferença muito injusta: a injustiça social se mostra até na mudança demográfica do planeta. Os países ricos que estão ficando velhos enriqueceram antes de envelhecer, mas a maioria de nós, países em desenvolvimento e o Brasil é um deles, infelizmente não possui uma condição, como os países desenvolvidos, de poder prover os nossos idosos de uma condição, de uma linha de cuidados que realmente os acolha e dê dignidade a esse processo de envelhecimento".

Unindo os dois pontos, a pesquisadora lembrou que a população acima de 60 anos, principalmente no que se refere às mulheres, é a principal afetada pelos desastres climáticos. O sistema de saúde precisa estar preparado para atender a esta população. Ela destacou que os diferentes tipos de alterações ambientais podem causar consequências diretas ou indiretas na saúde da comunidade atingida. O frio, por exemplo, amplia a incidência de doenças respiratórias; o calor em excesso causa mais morbidades relacionadas ao sistema cardiovascular; e a poluição descontrolada piora tendências de doenças neurodegenerativas. As alterações provocadas no ecossistema por causa das mudanças climáticas facilitam a disseminação de doenças infectocontagiosas, transmitidas ou não por vetores. Outro impacto são os danos psicológicos provocados nas populações vulneráveis a desastres ditos naturais.

A professora da Fiocruz fez ainda um alerta. Nos próximos 10 anos, a tendência é que ocorra uma nova pandemia, provavelmente causada pelo vírus H5N1. Por isso defendeu: "É necessário se criar uma nova institucionalidade para preparar o país para as próximas epidemias, que não sofra com mudanças governamentais". Ela informou que um grupo de trabalho está sendo realizado para a criação desta nova organização estatal. "Precisamos de uma instituição que possa agilmente ser convocada e que preveja laboratórios estoque de medicamentos, de respiradores e EPIs, para que não tenhamos que passar pelo que passamos com o Covid", finalizou.

A pesquisadora recebeu da UFCSPA e da Santa Casa uma homenagem, pelos serviços prestados para a saúde pública no Brasil.