Em 2008, a Organização das Nações Unidas decretou o dia 2 de abril como o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, sendo a campanha Abril Azul uma oportunidade para levar à população mais informações sobre o transtorno. Em entrevista ao novo site da UFCSPA, o professor Ricardo Halpern, pediatra responsável pelo Serviço de Desenvolvimento e Comportamento da Criança do Hospital Santo Antônio, esclarece dúvidas sobre o quadro clínico. Confira: 

 

UFCSPA: O que caracteriza o transtorno do espectro autista?

 

Ricardo Halpern: Existe uma grande variabilidade no quadro clínico. Crianças com o transtorno apresentam dificuldades de comunicação, interação, reciprocidade e comportamentos adaptativos. Não existe um quadro clínico exatamente igual ao outro, havendo diferenças individuais dentro deste escopo de dificuldades sociais. Temos desde casos muito severos até muito discretos. 

 

UFCSPA: É possível falar em uma causa?

 

Halpern: Trata-se de um transtorno do neurodesenvolvimento com uma base epigenética. Isto significa que este quadro clínico é desencadeado por uma alteração nos genes influenciada por gatilhos ambientais. Por isso se diz que são muitos fatores envolvidos, já que mais de 500 genes estão possivelmente relacionados ao transtorno. 

 

UFCSPA: Qual a importância do diagnóstico precoce?

 

Halpern: Quanto mais cedo for feito o diagnóstico, mais recursos a criança terá devido à neuroplasticidade do seu sistema nervoso central. Assim, há maior chance de mudar o prognóstico. Costumamos dizer que crianças com diagnóstico precoce muitas vezes consegue “reprogramar” o cérebro com os estímulos adequados, melhorando a qualidade de vida dos pequenos. 

 

UFCSPA: Quais as principais dúvidas levadas pelos pais ao consultório?

 

Halpern: Muitos pais chegam com muitas angústias porque existe um estereótipo do autismo. O transtorno ainda é visto por grande parte da população como uma sentença, uma situação imutável, sem possibilidade de melhora. Na verdade, existe um gradiente de sintomas, mas normalmente imaginam aquele quadro mais severo. Quando os pais buscam o serviço especializado, isso começa a ser esclarecido, pois passam a conhecer as várias técnicas e condutas terapêuticas que podem modificar dramaticamente a evolução do paciente. Procuramos sempre individualizar os casos de acordo com cada família e paciente, e insistir que, antes do diagnóstico, existe uma criança com suas características individuais. 

 

UFCSPA: Existe muita desinformação sobre o transtorno, especialmente na Internet. Como o senhor avalia esta situação?

 

Halpern: A internet é uma ferramenta muito útil, mas pode ser usada para fins deletérios. Um exemplo são as informações equivocadas que relacionam vacinas e autismo, baseadas em um estudo mal feito do ponto de vista metodológico. Imagine o dano que esta desinformação pode causar. Existem muitas informações inadequadas, como propostas de tratamento sem nenhuma evidência científica. É o tipo de coisa que causa um desserviço para a compreensão da população sobre o transtorno.